Fernando Belens (Fernando Antonio da Silva Belens, Poções-BA, 4 de maio de 1950). Ainda adolescente, muda-se com a família para Salvador com o propósito de cursar o então segundo grau. Anos mais tarde, conclui o curso de Medicina, na UFBA. Em paralelo a este processo de escolarização formal, emerge seu interesse pelo cinema, primeiro através das atividades escolares e, posteriormente, buscando o que ele mesmo define como “senso estético”; acaba então enveredando-se para a realização cinematográfica.

Nos anos 1970, compra uma câmera 8 mm. No entanto, é apenas a partir do Super-8 que normalmente se localiza o começo de sua produção, inicialmente autodidata. Data deste período a sua primeira experiência com a censura, com o filme Viva o Cinema (1973), além das suas primeiras Experiências (1975). Em 1976, participa da turma do Curso Intensivo de Cinema, organizado pelo Clube de Cinema da Bahia em parceira com a ABD, Goethe Institut e Embrafilme, no qual faz parte da equipe de Por exemplo, Caxundé, curta-metragem ganhador do Primeiro Lugar no Festival de Curta-metragens do JB/Shell, em 1977.

Belens faz parte do chamado “boom superoitista” ou “geração super-8”, dos anos 1970, que se espraiou para o princípios do anos 1980. No caso da Bahia, estes realizadores tanto são frutos da formação do campo cinematográfico proporcionado pela atuação conjunta do Clube de Cinema, do Grupo Experimental e também da Jornada de Cinema da Bahia, quanto, no caso da vertente experimental, do interesse em relação às temáticas contraculturais. Na produção de Belens esta instância se apresenta, inclusive contemporaneamente, na investigação constante sobre o corpo, suas poéticas e potências políticas.

É também desta confluência que, no fim da década de 1970, surge a Lumbra, coletivo formado por Fernando Belens, Edgard Navarro, José Araripe Jr e Pola Ribeiro, como núcleo principal, além das participações episódicas de Jorge Felippe, Ana Nossa e Dinorah do Vale. Durante os anos 1980, a Lumbra vai abrigar grande parte da produção de todos eles, já migrando do super-8 para o 35 mm, mas ainda em curta-metragem, como ocorreu com toda a produção de Fernando Belens, já nos anos 1990. Pau Brasil (2009), adaptação do livro homônimo de Dinorah do Vale, é até o presente o seu único filme em longa-metragem, e circulou tanto no circuito de festivais, quanto em salas comerciais.

(por Izabel de Fátima Cruz Melo)

 

Filmografia:

1971 - Anônima Fragmentação (Super-8, 13', som)

1971 - O cemitério (Super-8, 11', som)

1973 - Viva o cinema (Super-8, 5', som)

1974 - Crianças no Morro da Sereia, codireção Carlos Melo (Super-8, 12', som)

1975 - Experiência II transformada (Super-8, 5', som)

1975 - Experiência III (Super-8, 5', som)

1975 - Experiência IV (Super-8, 4'23", som)

1976 - O discurso dos mendigos, codireção Dinorah do Vale (Super-8, 8', som)

1976 - Por exemplo, Caxundé, realizado pela equipe do Curso Intensivo de Cinema: Fernando Belens, Pola Ribeiro, Maria Edna Oliveira, Antonio Cury, Eduardo Cabrera, Homero Teixeira, Romero Azevêdo (16mm, 20', som)

1977 - Experiência V (Super-8, 2', som)

1977 - Direito, direitos, humanos à parte (suporte desconhecido, 7', som)

1978 - Experiência I – B (Super-8, 10', som)

1978 - Cinema sem nome, codireção de Edgard Navarro, José Araripe Jr., Pola Ribeiro (Super-8, som)

1979 - Em se plantando tudo une (Super-8, 12', som)

1980 - Crianças de mundo novo (35mm, 13', cor, som)

1981 - Ora bombas, ou a pequena história do pau, Brasil. (Super-8, 5', som)

1981 - Pixado, codireção Pola Ribeiro (Super-8, 8', som)

1981 - Me diz que sou seu tipo, codireção Edgard Navarro, José Araripe Jr., Pola Ribeiro, Dudú Martinez (Super-8, 8', som)

1983 - Oropa, Luanda, Bahia (35mm, 10'30", cor, som)

1986 - Fibra (16mm, 20', cor, som)

1990 - Anil (16mm, 8', cor, som)

1994 - Héteros, a comédia (35mm, 26', cor, som)

2000 - Pixaim (35mm, 26', cor, som)

2009 - Pau Brasil (35mm, 96', cor, som)


 

Fontes de pesquisa:

BELENS, Fernando. Entrevista concedida a Izabel de Fátima Cruz Melo. Salvador. 16 de agosto de 2008.

FILMOGRAFIA BAIANA. Disponível em http://www.filmografiabaiana.com.br. Acesso em 30 set 2019.

 

CRUZ, Marcos Pierry Pereira da. O Super-8 na Bahia: história e análise. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós Graduação em Ciências da Comunicação. Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

 

MELO, Izabel de Fátima Cruz Melo. Cinema, circuitos culturais e espaços formativos: novas sociabilidades e ambiência na Bahia. Tese de Doutorado. Programa de Pós Graduação em Meios e Processos Audiovisuais. Escola de Comunicação e Artes. Universidade de São Paulo: São Paulo, 2018.

 

SOUZA, Marise Berta de. O corpo e a política na poética fílmica de Fernando Belens. Revista Gama, Estudos Artísticos. 5, (10), julho-dezembro. 83-9, 2017.

 

VIEIRA, Paulo Sá. O cinema super-8 na Bahia. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1984.