Cronologia

 

1897 – Em 27 de novembro o advogado, curandeiro, bicheiro, mágico, prestidigitador e empresário do ramo de diversões e exibições José Roberto da Cunha Salles deposita na seção de Privilégios Industriais do Ministério da Agricultura do Rio de Janeiro um pedido de patente do Cinematógrafo, descrevendo em seu pedido os procedimentos de filmagem e revelação. Anexa como prova uma fita com 11 fotogramas com imagens que teria filmado de um ancoradouro da Baía de Guanabara. Seria a primeira filmagem da história do cinema brasileiro. O cineasta e pesquisador Carlos Adriano, que utilizou esses fotogramas em seu filme experimental Remanescências (1997), argumenta que se Cunha Salles não foi o primeiro a captar imagens no Brasil, inaugurou o cinema brasileiro reapropriando imagens alheias, uma prática experimental.

 

1898 – Em 19 de junho, Paschoal Segreto teria realizado as primeiras imagens cinematográficas em território brasileiro: a bordo do navio que lhe trazia de volta ao Brasil e com equipamentos que haviam adquirido na Europa, filma imagens da Baía de Guanabara. Júlio Bressane conjectura que “estas imagens com a câmera em movimento (travelling) e oscilando, movimento natural do barco, foram um total experimento cinematográfico. O experimental está, entre outros indicadores, pelo inusitado do lugar onde se encontrava a câmera, pelo movimento e pela oscilação (pelo balanço, e isto era bossa nova), que certamente alterava a apreensão da luz e da paisagem. (...) Notamos aí nesse episódio dos irmãos Segreto (nascimento do cinema entre nós) que no cinema nacional no seu nascedouro, na sua primeira configuração, no esboço de seu signo, existe já o elemento experimental. Este fio fino transpassará todo o cinema brasileiro daí em diante e para sempre.”[1]

 

1926 - Em Paris, o brasileiro Alberto Cavalcanti, plenamente inserido na vanguarda cinematográfica francesa, realiza Rien que les heures (Nada além das horas), um média-metragem mostrando um dia na vida da metrópole. Trata-se de um marco inicial das chamadas “sinfonias da cidade” dos anos 1920. Realizaria ainda na França os vanguardistas En Rade (1927), La P'tite Lilie (1927) e Vous Verrez la Semaine Prochaine (1929), dentre outros.

 

1928 – Humberto Mauro realiza o curta-metragem Sinfonia de Cataguases sob influência do filme Berlim, sinfonia da metrópole, de Walter Ruttmann, exibido no Brasil no mesmo ano.

 

1929 - Em São Paulo, os imigrantes húngaros radicados no Brasil Adalberto Kemeny e Rodolpho Rex Lustig realizam São Paulo, a sinfonia da metrópole, também influenciado pelo filme alemão.

 

1930 - Em Mangaratiba-RJ, Mário Peixoto realiza seu único filme, Limite. O filme de vanguarda seria finalizado e exibido em círculos restritos no ano seguinte.

 

1949 - Alberto Cavalcanti retorna ao Brasil e ajuda a fundar a Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Pela empresa roteiriza e produz os filmes Caiçara (1950) e Terra é sempre terra (1951). Pela Companhia Cinematográfica Maristela, que ajudou a criar, dirige ainda os filmes Simão, o Caolho (1952) e O Canto do Mar (1954), esse último refilmagem de En rade (1927). Nenhum dos filmes segue as propostas vanguardistas do início de sua carreira.

 

1954 – Realização do I Festival Internacional de Cinema do Brasil, com diversas exibições e convidados estrangeiros. Nela houve uma “Homenagem a Cavalcanti”, com palestra de Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, sobre a obra do cineasta e projeção de Rien que les heures e En Rade. Presença e exibição dos filmes do animador escocês Norman McLaren, que causaria grande impressão nos futuros pioneiros da animação experimental brasileira.

 

1954 - Cavalcanti realiza ainda Mulher de verdade (1954) pela Kino Filmes. A empresa abre falência logo depois. Em dezembro deste ano, Cavalcanti retorna à Europa para preparar, com Bertolt Brecht, o filme O Sr. Puntila e seu Criado Matti (1955).

 

1957 – Após estágio no Canadá com o animador Norman McLaren, Roberto Miller realiza Sound Abstract (1957), primeiro filme de animação abstrato realizado no Brasil. Realizaria até os anos 2000 dezenas de animações experimentais, com intervenções realizadas diretamente sobre a película.

 

1959 - Em Salvador, Glauber Rocha termina Pátio, seu primeiro curta-metragem, filme “experimental” (como grafado nos letreiros iniciais) em que se observa forte influência do concretismo brasileiro e internacional. Rejeitaria o filme nos anos vindouros considerando-o formalista e isolado da realidade histórica, avaliação que estenderia às demais produções experimentais e vanguardistas, como Limite.

 

1960 – Rubens Francisco Lucchetti e Bassano Vaccarini criam o “Centro Experimental de Cinema de Ribeirão Preto” dedicado às pesquisas no campo da animação experimental. Assessorados por Roberto Miller, produziriam no início dos anos 1960, 14 filmes experimentais como Abstrações (1960) e Voo Cósmico (1961).

 

1965 – Em agosto ocorre o I Festival de Cinema Amador JB/Mesbla. O Festival exibiria nas edições seguintes os primeiros curta-metragens de cineastas associados ao chamado Cinema Marginal e diversos filmes experimentais tais como Nadja (1966), de Paulo Paranaguá, Roteiro do Gravador (1967), de Sylvio Lanna, Lavra Dor (1968), de Paulo Rufino e Ana Carolina, Pantera Negra (1968), de Jô Oliveira, Contestação (1969), de João Silvério Trevisan, The Southern Contest Myth (1969), de Djalma Limongi Batista, dentre outros.

 

1967 - Em São Paulo, Ozualdo Candeias realiza A Margem, seu primeiro longa-metragem.

 

1968 - Rogério Sganzerla termina O Bandido da Luz Vermelha, seu primeiro longa-metragem, obtendo grande sucesso de público. O guru do tropicalismo José Agrippino de Paula filma Hitler 3º Mundo.

 

1968 - Rui e Jô Oliveira, Pedro Ernesto Stilpen (o Stil), Carlos Alberto Pacheco e Antônio Moreno, então alunos da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, criam o grupo Fotograma, dedicado à promover o cinema de animação. O grupo organiza mostras internacionais e sessões dedicadas ao gênero no Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), um programa de TV no Canal 9 da cidade e produzem filmes de animação, como o experimental Pantera Negra, de Jô Oliveira.

 

1968 – Ana Carolina e Paulo Rufino realizam Lavra-dor, documentário experimental sobre trabalho rural, as esperanças perdidas pela reforma agrária após o golpe militar de 1964 e a questão da objetividade do cinema documentário.

 

1968 – Em quatro dias Glauber Rocha filma improvisadamente Câncer no Rio de Janeiro, finalizado somente quatro anos depois, em Cuba. O cineasta consideraria Câncer o primeiro filme underground realizado no Brasil, a despeito de toda a produção do chamado Cinema Marginal.

 

1969 – João Silvério Trevisan realiza o curta-metragem Contestação, filme de colagem de imagens de jornais, impressos e televisivos que mostram confrontos de jovens manifestantes com a polícia de diversos países. A autoria do filme permaneceu anônima nesse período de recrudescimento da ditadura civil-militar após a publicação do AI-5, em dezembro de 1968.

 

1969 - Júlio Bressane filma simultaneamente O Anjo Nasceu e Matou a Família e foi ao Cinema. Outras produções futuramente associadas ao Cinema Marginal são realizadas nesse ano, como A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla, Meteorango Kid, Herói Intergalático, de André Luiz de Oliveira e Gamal, o Delírio do Sexo, de João Batista de Andrade. Sganzerla ainda filma em Nova York Carnaval na Lama (também conhecido como Betty Bomba, a Exibicionista).

 

1970 – Então estudantes da Escola de Comunicação e Artes da USP, Aloysio Raulino e Luna Alkalay filmam Lacrimosa, documentário experimental realizado às margens do rio Tietê e Arrasta a Bandeira Colorida (Carnaval de Rua em São Paulo), a partir de fotografias do carnaval de rua da cidade. Raulino ainda realizaria no período o censurado A Santa Ceia, episódio do longa Vozes do Medo junto a episódios experimentais realizados por colegas da ECA e coordenado pelo cineasta e professor da instituição, Roberto Santos.

 

1970 - Em fevereiro, Júlio Bressane, Rogério Sganzerla e Helena Ignez criam a Belair, produtora de filmes estabelecida no Rio de Janeiro. Até maio deste ano, eles filmariam dentro do contexto da Belair cinco longas-metragens, finalizados em sua maioria no exílio artístico na Inglaterra: Sem Essa Aranha e Copacabana Mon Amour, de Rogério Sganzerla e Família do Barulho, Cuidado Madame e Barão Olavo, o Horrível de Júlio Bressane.

 

1970 – Além dos filmes de Sganzerla e Bressane são filmados nesse ano diversas produções de grande inventividade formal e ousadia em termos de observação comportamental e política. O conjunto desses filmes realizados nesse ano e nos anos adjacentes tornaram-se conhecidos como Cinema Marginal. Em São Paulo são realizados Orgia ou o Homem que Deu Cria, de João Silvério Trevisan; República da Traição, de Carlos Ebert e O Pornógrafo, de João Callegaro. Em Minas Gerais, Bang Bang, de Andrea Tonacci e Sagrada Família, de Sylvio Lanna. O mineiro Geraldo Veloso filma no Rio de Janeiro Perdidos e Malditos. Na mesma cidade, Neville D’Almeida, Luiz Rosemberg Filho e Elyseu Visconti filmam, respectivamente, Piranhas do Asfalto, Jardim das Espumas e Os Monstros de Babaloo. Em Salvador, Álvaro Guimarães realiza Caveira My Friend. A maior parte desses filmes foram interditados parcial ou totalmente pela censura, não tendo exibição comercial.

 

1970 – O jovem Ivan Cardoso, então com 18 anos e próximo aos cineastas da Belair, realiza seus primeiros filmes, como Piratas do Sexo Voltam a Matar (1970). É o início da série Quotidianas Kodak, rodados sempre em Super-8, bitola recentemente popularizada e que predominaria no cinema experimental brasileiro na década.

 

1970 – A artista visual Lygia Pape realiza seu primeiro filme experimental na bitola Super-8, Ovo (ou Artes Plásticas) em que registrava um de seus trabalhos mais conhecidos de mesmo nome. Apesar de já ter realizado outros filmes assim como trabalhado em trucagens, letreiros e montagem de filmes de outros diretores é no Super-8 que ela desenvolve a maior parte dos trabalhos experimentais no cinema como em The Super (1971), Wampirou (1974), Carnival in Rio (1974), Our Parents (1974), Arenas Calientes (1974) e Favela da Maré (1982). Para Pape “O super-8 é realmente uma nova linguagem, principalmente quando também está livre de um envolvimento mais comercial com o sistema. É a única fonte de pesquisa, a pedra de toque da invenção. (...) O processo que imprime o negativo é altamente desenvolvido, possibilitando um registro imediato e livre dos esquemas analíticos da montagem tradicional. Você filma montando. Você é o registro na máquina. O respirar e a pausa, o certo e o errado, tudo estará lá.”

 

1971 - Ivan Cardoso filma Nosferatu no Brasil, tendo o poeta Torquato Neto como protagonista. Haroldo de Campos em artigo da época consideraria o filme como uma “dentada” na “jugular esclerosada do cinema sério” e “monumental”, “assumindo assim a linha mais radical do nosso cinema imediatamente anterior”, de Sganzerla e Bressane.

 

1971 - Artistas plásticos e poetas brasileiros interessados nas experiências de Ivan Cardoso, assim como na maior autonomia de sua produção e circulação à margem dos meios institucionalizados e pela facilidade no manuseio, adotam o Super-8 como meio audiovisual nesse ano. Entre eles estão Hélio Oiticica, que filma Brasil Jorge em Nova York; Antônio Dias, que, na Itália, inclui alguns filmes nessa bitola na série The Illustration of Art; e, finalmente, Torquato Neto com seu Terror na Vermelha, filmado em Teresina-PI. Em sua coluna Geleia Geral no jornal Última Hora Torquato Neto promovia o superoitismo no Brasil como prática marginal e aberta à invenção em contraponto ao período mais duro de repressão política: “pegue uma câmera e saia por aí, como é preciso agora (...) documente tudo o que pintar, guarde. Mostre. Isso é possível”.

  

1971 - Em janeiro, na Universidade de Columbia, em Nova York, Glauber Rocha apresenta a comunicação "Estética do sonho", em continuidade e também ruptura com seus textos-manifestos “Estética da fome” (1965) e “Cinema tricontinental”. Glauber reordenaria neste texto seu ideário estético-político aprofundando questões de sua “estética da fome” e diferenciando seu cinema do realismo e do cinema militante em voga. Afirmaria a necessidade de uma arte revolucionária capaz de entrar em sintonia com o sonho do oprimido, dando voz às suas pulsões inconscientes de modo tal a “libertar as irrealidades de nosso tempo” da razão burguesa que a ordenava. Glauber reencontraria no cinema experimental e vanguardista um aliado “anti-racionalista”, ousado em termos formais e também avesso ao utilitarismo militante.

 

1971 – Os últimos filmes do ciclo do Cinema Marginal são filmados no país, dentre eles Lobisomem, Terror da Meia-noite, de Elyseu Visconti e Prata Palomares, de André Faria, futuramente interditados pela censura. A partir de ideia inicialmente concebida junto à Hélio Oiticica, Neville D’Almeida filma na região do Mangue, no Rio de Janeiro, o experimental Mangue Bangue, em que expressa diretamente o sentimento de exasperação durante o período mais duro da ditadura. No ano seguinte Neville revelaria o material filmado clandestinamente e o montaria em seu exílio artístico em Londres.

 

1971 – Enquanto alguns dos filmes do Cinema Marginal são totalmente interditados pela censura como Orgia, ou o Homem que deu Cria, República da Traição e Os Monstros de Babaloo outros cineastas do grupo realizam os primeiros filmes no exílio artístico. Nesse ano Júlio Bressane filma os experimentais Crazy Love/Amor Louco e Memórias de um Estrangulador de Loiras na Inglaterra e Lágrima-Pantera, a Míssil em Nova York. Neville D’Almeida filma Night Cats na Inglaterra. Rogério Sganzerla e Helena Ignez filmam Fora do Baralho, no Marrocos.

 

1972 – Ocorre a I Jornada Baiana de Curta-Metragem, renomeada Jornada Brasileira de Curta-Metragem em 1974, o principal festival cinematográfico do período a abrigar a produção experimental brasileira, seja filmada em 16mm seja em Super-8. Idealizada e organizada por Guido Araújo as Jornadas foram palco de acalorados debates estéticos e políticos.

 

1972 - Em exílio artístico em Nova York, Hélio Oiticica filma em Super-8 Agripina é Roma-Manhattan, com Cristiny Nazareth, Antônio Dias e a drag queen Mario Montez, estrela de filmes do cinema underground novaoiorquino, como aqueles realizados com Jack Smith e Andy Warhol. O título do filme, assim como aquele realizado por Júlio Bressane com Oiticica no ano anterior (Lágrima-Pantera) provém de verso de O Guesa, do poeta maranhense Sousândrade. O filme não foi finalizado pelo autor.

1972 - Luiz Rosemberg Filho realiza Imagens, talvez seu longa-metragem mais radical. Inteiramente silencioso, sem diálogos e com atores desconhecidos, o filme encadeia imagens da repressão, tortura, imobilidade e impossibilidade de expressão. Levado de forma clandestina ao exterior o filme circulou em cineclubes, centros culturais e mostras, vencendo no ano seguinte o Prêmio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema Jovem de Toulon, principal mostra europeia dedicada ao cinema experimental. Dado como perdido, uma cópia do filme foi localizada recentemente no acervo do Collectif Jeune Cinéma, entidade organizadora desse festival.

1972 – José Agrippino de Paula e a coreógrafa e artista da dança Maria Esther Stockler filmam em Super-8 em diferentes regiões da África os filmes Candomblé no Dahomey (ou Fetichismo no sul do Dahomey), Candomblé no Togo e Maria Esther: Danças na África, montando-os anos depois. Filmariam ainda no período Dogon e Timbucu, hoje considerados perdidos. Nessas obras registrariam as cerimônias religiosas e rituais do candomblé e certa tradução desses transes na dança e gestualidade de Maria Esther.

1972 – Artista multimídia e antropólogo Arthur Omar realiza o curta-metragem Congo, um “experimento” como afirmava, quase todo construído com letreiros, sobre o congado afro-brasileiro. Uma crítica ao documentário tradicional, de caráter sociológico, e aos conceitos que o sustentavam como a forma-espetáculo, a transparência e a pretensa reprodução do real, Congo seria um “antidocumentário” como discutiria seu autor no influente ensaio “O antidocumentário, provisoriamente”, publicado pela primeira vez nesse mesmo ano e reformulado posteriormente. Omar teria uma consistente produção de filmes experimentais nas décadas de 1970 e 1980 como Triste Trópico (1974), O Anno de 1798 (1975), Tesouro da Juventude (1977), Vocês (1979), Música Barroca Mineira (1981), O Som, ou Tratado de Harmonia (1984) e Ressureição (1987).

 

1973 - Em junho é realizada em São Paulo a mostra EXPOPROJEÇÃO 1973, organizada por Aracy Amaral, reunindo pioneiramente no país os trabalhos experimentais nas novas mídias de então: filmes de artista em Super-8, obras sonoras e apresentações artísticas com slides e sons, os então denominados “audiovisuais”. Cerca de 40 artistas então interessados nas novas mídias foram convidados a apresentar algum trabalho na célebre exposição, entre eles Lygia Pape, Hélio Oiticica, Anna Maria Maiolino, Cildo Meireles, Antônio Dias, Mario Cravo Neto, Décio Pignatari, Iole de Freitas, Arthur Barrio, Carlos Vergara, Anna Bella Geiger e Rubens Gerchman.

 

1973 – Em agosto na cidade de São Paulo ocorre o I Super Festival Nacional do Grupo dos Realizadores Independentes de Filmes Experimentais, mais conhecido como GRIFE. A iniciativa, liderada por Abrão Berman, seria a mais perene e importante dedicada somente à bitola Super-8 no país, ocorrendo até o ano de 1983. Filmes experimentais estariam sempre presentes nos festivais do GRIFE, como Cubo de Fumaça e O Mar, ambos do artista plástico Marcelo Nitsche e exibidos nessa primeira edição.

1973 – A coreógrafa, bailarina e pesquisadora corporal Analívia Cordeiro concebe a coreografia para vídeo M 3x3 com apoio da TV Cultura de São Paulo, sendo considerada obra inaugural tanto da videoarte quando da videodança no Brasil. Diversas artistas plásticas fariam uso nessa década do novo meio audiovisual em uma perspectiva experimental, de exploração da tecnologia e relação com o corpo da artista, como Letícia Parente, Sônia Andrade, Anna Bella Geiger, Miriam Danowski, Ana Vitória Mussi, dentre outras.

1974 – Sérgio Péo filma em Super-8 Explendor do Martírio, no qual coloca em cena algumas intervenções e performances nas ruas do Rio de Janeiro, como uma espécie de “ação fílmica direta” em contestação a ordem restritiva imposta ao espaço público. O ápice do filme se dá com um ataque a uma estátua em homenagem a militares – e a consequente prisão do ator. Como afirma Rubens Machado, o “Super-8 aproximava-se, nesses momentos, do happening teatral, da pichação e da momentaneidade da poesia marginal, que se propunham transitórias, imediatas, mais ativas que representativas.”

1974 - Jomard Muniz de Britto realiza o primeiro filme em parceria com o grupo teatral olindense Vivencial Diversiones: Vivencial I. Em diálogo com o diretor do grupo Guilherme Coelho e outros integrantes realizaria mais doze filmes em Super-8 em que se colocava em cena a plataforma “anarco-crítica” que marcou a cena cultural pernambucana na década de 1970 como em Uma Experiência Didática: O Corpo Humano (1974), Toques (1975), Inventário de um Feudalismo Cultural Nordestino (1978) e Jogos Frutais Frugais (1979). Para Jomard Muniz de Brito “o grupo de teatro vivencial nunca pretendeu despistar sua condição de marginalidade em face da maioria das produções teatrais. está para o teatro estabelecido assim como a lixeratura ou a poesia de mimeógrafo para a literatura. [...]. assim como a lixeratura e o superoito mais crítico, o grupo vivencial deseja colocar em cena, no nível de uma discussão permanente, a dialética entre o erótico e o político, sem pedir permissão nem a platão nem a marx-engels para revolucionar a palavra no corpo. [...] a palavra vivencial é assumida ao pé da letra e consumida nas letras do corpo, desnorteando as ó-posições incômodas, travestindo a política de pornografia e vice-versa".

 

1975 – Lygia Pape realiza o curta-metragem Eat Me, um de seus poucos filmes do período a ser realizado na bitola 35mm. Trata-se de um “análise do comportamento dos veículos de comunicação em relação ao consumo da mulher como objeto erótico, patente na imagens que deflagram o desejo de consumo: a uma boca masculina, de múltiplas conotações, são sobrepostas vozes femininas que em diferentes línguas dizem 'A gula ou a luxúria'”

1977 – Mais reconhecido como crítico de cinema, Jairo Ferreira realiza o seu primeiro longa-metragem, iniciado dois anos antes, O Vampiro da Cinemateca. Filmado em Super-8 o filme é um misto de documentário performático, diário e filme-ensaio no qual se intercalam trechos de obras alheias, cenas cotidianas do próprio Ferreira e sequências ficcionais com improvisação de atores e poetas.

1977 – Sérgio Péo realiza Rocinha Brasil 77, investigação documental sobre a vida, os hábitos e reflexões dos moradores da maior favela da América Latina. Rocinha Brasil 77 venceria o prêmio de melhor filme na Jornada de Curta Metragem de Salvador, no Festival Brasileiro de Curtas JB/Mesbla e menção honrosa no Festival de Oberhausen, na Alemanha.

 

1977 – Glauber Rocha conclui o documentário experimental Di Cavalcanti (ou Di Glauber ou Ninguém assistiu ao formidável enterro de sua quimera, somente a ingratidão essa pantera, foi sua companhia inseparável) sobre a vida e obra do pintor brasileiro. O filme receberia no Festival de Cannes o Prêmio Especial do Júri de melhor curta-metragem e, dois anos depois, teria sua exibição proibida na justiça por ação dos familiares do pintor, incomodados com as filmagens de seu funeral.

 

1977 – O filósofo, poeta e agitador cultural Jomard Muniz de Britto realiza e protagoniza O Palhaço Degolado, em que ironiza de forma cáustica as ideias de dois monumentos tradicionalistas da cultura pernambucana: a obra antropológica de Gilberto Freyre e o movimento Armorial de Ariano Suassuna. Voltaria carga contra ambos em Inventário de um Feudalismo Cultural Nordestino (1978) junto ao grupo teatral Vivencial Diversiones.

 

1978 – Limite (1931), de Mário Peixoto, volta a ser exibido em cinemas sob os esforços de preservação e restauração de Plínio Süssekind Rocha e Saulo Pereira de Mello.

 

1978 – É criada no Rio de Janeiro a Cooperativa dos Realizadores Cinematográficos Autônomos (CORCINA), motivada pela regulamentação da Lei do Curta no ano anterior que estabelecia a exibição de curtas-metragens brasileiros nos cinemas comerciais. A cooperativa de cineastas independentes realizou e distribuiu dezenas de filmes brasileiros até o seu fim em 1983, entre eles diversos filmes experimentais de grande inventividade como Era uma Vez, de Jorge Abranches (1979), Cildo Meireles, de Wilson Coutinho (1979), Os Sonacirema, de André Parente (1978), Lygytymah Dephezah, de Lúcio Aguiar (1981) e Acorde Maior, de José Inácio Parente (1984).

 

1979 - Geneton Moraes Neto realiza em Super-8 o experimental Fabulário Tropical, em que realiza uma interpretação mordaz da história pernambucana através de um passeio “turístico” pelos monumentos e cartões postais de Recife. Mais reconhecido como jornalista, Geneton construiu uma consistente obra cinematográfica nesse período, de modo geral na bitola Super-8, como nos filmes Esse onze aí (1978), A flor do lácio é vadia (1978), Funeral para a década das brancas nuvens (1979) e A esperança é um animal nômade (1981).

 

1979 – Os cineastas baianos Fernando Belens, Edgard Navarro, José Araripe Jr. e Pola Ribeiro formam o coletivo Lumbra Cinematográfica, que contaria ainda com participações episódicas de Jorge Felippi, Ana Nossa e Dinorah do Vale. Estes cineastas que já haviam filmado na década de 1970 diversas produções experimentais em Super-8 migrariam nas décadas seguintes para outros formatos analógicos, realizando na Lumbra, em revezamento de funções técnicas, cerca de 20 filmes em curta-metragem, incluindo filmes experimentais de grande valor como Sorrir (1989) e Anil, ambos de Fernando Belens (1990).

1981 – Miguel Rio Branco monta em filme Nada Levarei Qundo Morrer Aqueles que Mim Deve Cobrarei no Inferno a partir da série fotográfica Maciel (1979), em que registrava os moradores da região de mesmo nome, zona de prostituição de Salvador.


1986 – Aloysio Raulino realiza o filme ensaio Inventário da Rapina a partir de poemas de Cláudio Willer, conjungando reapropriação de materiais alheios, citações, performances e derivas documentais.

 

1986 – O crítico e cineasta Jairo Ferreira publica a primeira edição de Cinema de Invenção em que inventaria e discute apaixonadamente certo cinema experimental brasileiro nos “anos da utopia e da incerteza, 1967/1971”, popularmente conhecido como Cinema Marginal.

1992 – Cristina Amaral e Raquel Gerber finalizam o curta-metragem Abá, resultante de filmagens realizadas para o longa-metragem Orí (1989). Como afirma Carla Italiano, Abá elabora uma poesia fílmica a partir da costura de recorrências históricas, musicais, transatlânticas e negras, sob a égide de uma montagem ‘cósmica’, resultando em um trabalho experimental de rara beleza.”

 

1997 – Carlos Adriano realiza o filme experimental Remanecescências a partir dos 11 fotogramas filmadas ou apropriadas cem anos antes por José Roberto da Cunha Salles.

 

2001 – Em São Paulo ocorre a mostra Marginália 70: o experimentalismo do super-8 brasileiro, organizada por Rubens Machado Jr., que resgatou e reuniu cerca de 180 filmes realizados em todas as regiões do país, praticamente inacessíveis desde os anos 1970. Nos dois anos seguintes a mostra percorreria dezenas de cidades no país e no exterior, jogando nova luz e atraindo interesse de novas gerações sobre esse período de grande ousadia estética e política do cinema brasileiro.

 

2002 - Após longo hiato, Marcos Bertoni volta a realizar filmes, agora dentro de uma nova proposta intitulada Dogma 2002. Segundo os novos preceitos do realizador, “É proibido filmar. É permitido reciclar, montar, dublar. Sempre em super-8.” Realizaria a partir de então filmes “reciclados”, em que se opera a colagem de trechos de vários filmes super-8, entre pessoais, caseiros ou de anônimos, comprados em feiras de usados e filmes comerciais norte-americanos (reduzidos para Super-8). Esta nova fase inclui curtas como Doutor Ekard (2002), Recuerdos da República (2002), Cocô Preto (2003) e Môr (2014), entre outros.

[1] “O experimental no cinema brasileiro”. Alguns, pp. 35-36.