Luiz Rosemberg Filho (Rio de Janeiro-RJ, 1943 - 2019). Cineasta, ensaísta e artista visual carioca. Se interessa primeiramente pela pintura de forma amadora. Apaixonado por teatro, se aproxima do CPC da UNE no início dos anos 60, período em que roda o curta-metragem Levante, ficção sobre uma greve operária, que fica inacabado. Seu primeiro longa metragem é Balada da página três (1969), filme pouco visto e hoje parcialmente perdido. Embora identificado com o Cinema Marginal, Rosemberg sempre manteve postura independente, se aproximando de preocupações políticas próprias ao Cinema Novo.

 

Dirigiu o episódio Colagem, no longa América do sexo (1969), produção de A.P. Galante na Boca do Lixo. Realizou filmes importantes no panorama do cinema brasileiro dos anos 1970, como O jardim das espumas (1970), filme radical em que flerta alegoricamente com a ficção científica e com as ideias do encenador polonês Jerzy Grotowski. Proibido pela censura, o filme foi liberado somente em 1973. Imagens (1972), rodado em 16mm e mudo, talvez seu filme mais genuinamente experimental, é uma sucessão de cenas dolorosas de tortura e impossibilidade de expressão. Levado clandestinamente para a Europa, ganhou prêmio de melhor filme no Festival du jeune cinéma de Toulon. Rosemberg vive alguns anos em Paris e, ao retornar ao Brasil, roda em 16mm A$suntina das Amérikas (1975), em que dialoga antropofagicamente com o gênero musical, segundo Jairo Ferreira “um filme explosivo, um antimusical sobre as influências de Hollywood na realidade brasileira”1. O longa foi proibido no Brasil e liberado apenas para exibições no exterior. Já Crônica de um industrial (1978), uma “dolorosa reflexão sobre o fracasso da burguezya brazyleyra”2, como frisou Glauber Rocha. Foi selecionado para o Festival de Cannes e interditado pela censura dentro e fora do Brasil. Dirige ainda o filme de encomenda O santo e a vedete (1982), uma (anti) pornochanchada com tons bretchianos. Ensaísta prolífico, escreveu sobre cinema para diversos periódicos, como Cine Imaginário, Cine Olho e Versus, entre outros.

 

Organizou o livro Godard, Jean-Luc (1986), coletânea de depoimento e artigos do cineasta franco-suíço. Na impossibilidade de filmar longas, realizou uma extensa quantidade de curtas e médias-metragens rodados em vídeo e, posteriormente, em digital. São filmes ensaísticos que dialogam intrinsecamente com sua obra como artista visual, em particular com as colagens em papel que realiza desde os anos 70. Realizados de forma caseira e artesanal, seus filmes-ensaio contam com a ajuda de diversos jovens colaboradores e, frequentemente, com o diretor de fotografia Renaud Leenhardt, que participou de grande parte dos mais de 60 filmes que dirigiu. Após um hiato de 32 anos, voltou à realização de longas com Dois casamento$ (2014), Guerra do Paraguay (2016) e Os príncipes (2018), obras de baixo orçamento e frutos de sua parceria com o produtor carioca Cavi Borges. Pouco antes de falecer finalizou Bobo da corte (2019), longa-metragem de invenção calcado em monólogo em que radicaliza a possibilidade de filmar com recursos mínimos, espécie de testamento e emblema de sua relação visceral com o cinema.

 

(por Renato Coelho Pannacci)

 

Filmes como diretor

 

1962 (?) - Levante (curta-metragem inacabado)

1969 - Balada da página três (35mm, longa-metragem perdido)

1969 - América do sexo (16mm/35mm, 80'), episódio “Colagem” (29’)

1970 - O jardim das espumas (35mm, 108')

1972 - Imagens (16mm, 68')

1975 - A$suntina das Amérikas (16mm, 97')

1977 - Um filme familiar (1977, curta-metragem)

1978 - Crônica de um industrial (35mm, 87')

1979 - Ideologia (35mm, curta-metragem)

1980 - Auschwitz (35mm, 9')

1982 - O santo e a vedete (35mm, 85')

1984 - Alice (vídeo, 39')

1984 - Videotripe (vídeo, 40')

1988 - O vampiro (vídeo, 1988)

1989 - Desobediência (35mm, 10')

1991 - Cinema novo (vídeo, 12')

1993 - Agit-prop (vídeo, 8')

1993 - Science-fiction (vídeo, 5')

1993 - Experimental (vídeo, 13')

1993 - Barbárie (vídeo, 9')

1993 - Pornografia (vídeo, 9')

1994 - As sereias (vídeo, 8')

1994 - Imagens e imagens (vídeo, 7')

1994 - As máscaras (vídeo, 11')

2000 - As cadeiras de Constantin (vídeo)

2001 - Documentário (vídeo, 40')

2006 - Para Joel Yamaji (vídeo, 4')

2005 - Ana Terra (vídeo, 45')

2005 - Hollywood sem filtro II (vídeo, 24')

2005 - Guerra$ (vídeo, 22')

2005 - Vigário Geral (vídeo, 23')

2005 - Dois atos (vídeo, 11')

2006 - Passagens (vídeo, 18')

2006 - Analu (vídeo, 43')

2007 - O dinheiro (vídeo, 24')

2008 - Patrícia (vídeo, 36')

2008 - $angue (vídeo, 11')

2008 - Uma carta (vídeo, 13')

2009 - Nossas imagen$ (vídeo, 20')

2009 - Afeto (vídeo, 21')

2010 - O Discurso das imagens (vídeo, 19')

2010 - As últimas imagens de Tebas (vídeo, 15')

2010 - $em título (vídeo, 6')

2010 - As figurante$ (vídeo, 18')

2011 - Trabalho (vídeo 18')

2011 - Desertos (vídeo, 15')

2012 - Fragmentos (vídeo, 30')

2013 - Sobre o conceito de espetáculo (vídeo, 22')

2013 - Desaprender (vídeo, 13')

2013 - Linguagem (vídeo, 20')

2014 - Carta a uma jovem cineasta (vídeo, 25')

2014 - Farra dos brinquedos (vídeo, 26')

2014 - Dois casamentos (vídeo, 70')

2015 - Azougue (vídeo, 45')

2016 - Guerra do Paraguai (vídeo, 80')

2016 - Momentos (vídeo, 21')

2016 - Gozo/gozar (vídeo, 25')

2017 - Landscape (vídeo, 17')

2018 - Os príncipes (vídeo, 90')

2019 - Bobo da corte (vídeo, 70')

 

1 FERREIRA, Jairo. A$suntina das Amérikas só para estrangeiros. In Folha de S. Paulo, 28/6/1978.

2 ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.