Aloysio Raulino (Rio de Janeiro-RJ, 1947). Carioca, Aloysio Raulino se radica em São Paulo nos anos 1960, onde integra a primeira turma de cinema da ECA-USP e começa, ainda na universidade, uma intensa produção como diretor de fotografia e realizador de curtas-metragens experimentais. Desde os primeiros momentos, salta aos olhos a indissociabilidade entre o compromisso político e a liberdade poética. Seu primeiro filme é São Paulo (1967), seguido por Retorna, vencedor (1968), experimento ficcional realizado durante uma ocupação da cidade universitária pelos alunos do curso de cinema e premiado pelo júri do Festival Brasileiro de Cinema Amador. Em colaboração com os colegas de turma realiza Ensino vocacional (1969). Ainda em 1969, viaja ao lendário festival de Viña del Mar, no Chile, ponto de encontro dos maiores cineastas latino-americanos da época, para apresentar Rua 100, New York (1969), colagem em table-top a partir de fotografias, codirigida por Plácido de Campos Jr. Segundo o então diretor Aldo Francia, Raulino teria filmado um curta-metragem durante o festival, do qual não se tem notícia.

Na volta da viagem, inspirado pelo encontro com as obras de cineastas como Santiago Álvarez, Fernando Birri e Fernando Solanas, correaliza com Luna Alkalay, às margens da Marginal Tietê, Lacrimosa (1970), experiência radical de encontro e descoberta da cidade que, para Jean-Claude Bernardet, “revoluciona o documentário no Brasil”. Já neste primeiro grande filme, convivem o rigoroso improviso da câmera na mão – característico também das direções de fotografia de Raulino –, a sofisticação da montagem – que se expande em invocações de fragmentos poéticos e musicais de diversas procedências – e o tratamento sonoro dissonante, com especial atenção aos silêncios. Do mesmo ano é a colagem musical Arrasta a bandeira colorida, também codirigido por Alkalay, a partir de fotografias realizadas pelo casal no carnaval de rua em São Paulo. Em seguida, participa com o episódio ficcional A Santa ceia do longa Vozes do medo, coordenado por Roberto Santos. Na época o episódio é proibido na íntegra pela censura, uma cópia é apreendida e os negativos são destruídos.

 

Depois de realizar Jardim Nova Bahia (1971) – aventura pioneira de colaboração entre o cineasta e o lavador de carros Deutrudes Carlos da Rocha, cujas imagens integram a disjuntiva montagem final –, Raulino parte para um curto período de autoexílio na Europa entre 1972 e 1973, onde encontra Fernando Birri em Roma, durante a montagem de Org (1979). Na volta, participa da fundação da Associação Brasileira de Documentaristas (ABD), tornando-se seu primeiro presidente. Realiza Teremos infância (1974), que começa como um retrato do morador de rua Arnulfo Silva e se bifurca em um ensaio reflexivo sobre o gesto documental, premiado no festival de Oberhausen. Ao longo da década e até meados dos anos 1980, atua intensamente como diretor de fotografia – em filmes como Braços cruzados, máquinas paradas (1979) e O homem que virou suco (1981) –, engajando-se notadamente no ciclo de filmes realizados ao redor das grandes greves do ABC paulista. Seu engajamento na luta pelo cinema brasileiro se reflete também em atuações na Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e junto à Cinemateca Brasileira, como conselheiro.

Nos intervalos de seu trabalho como fotógrafo de cinema, realiza um conjunto exuberante de curtas-metragens em 16mm entre o documentário, o ensaio e a deriva poética. Tarumã (1975) se articula em torno de um único encontro e do depoimento lúcido e apaixonado de uma lavradora no interior paulista, em uma experiência singular de depuração cênica. O tigre e a gazela (1976) parte de textos de Frantz Fanon para compor, com imagens captadas nas ruas de São Paulo, uma investigação sobre a natureza ambivalente do olhar que se desdobra em exaltação revolucionária do povo. O Porto de Santos (1978) se desequilibra entre travelogue e alegoria política, filme de paisagem e conjunto de retratos na cidade portuária. Nesse período, a filmografia de Raulino encampa uma dialética irresolvida entre as utopias sessentistas e a exasperação pós-AI-5, entre o corpo-a-corpo com as margens de um país ignorado e a posta em crise do gesto cinematográfico.

Em 1981, realiza A morte de um poeta, com imagens dos funerais de Cartola. Em 1982, finaliza seu primeiro e único longa-metragem de ficção solo, Noites paraguayas, odisseia de um imigrante paraguaio em São Paulo que conjuga excertos documentais, comédia picaresca, teatro antinaturalista e um diálogo surpreendente com a tradição do cinema popular brasileiro. Em 1986, parte dos poemas de Cláudio Willer para realizar Inventário da rapina (1986), que conjuga found footage, citações, performances e derivas documentais em um ensaio dilacerado sobre um país em ruínas.

Nos anos 1990, torna-se professor na USP e realiza um conjunto de filmes, alguns deles em vídeo, explorando novas facetas de uma cidade em transição. Dessa época são Como dança São Paulo (1991), Credo (1992), Graffitti: nos muros recortados (1994) e, especialmente, São Paulo, cinemacidade (1994), experimento de montagem feito a partir da reapropriação de imagens do cinema paulista ao longo do século XX. Entre 1994 e 1996, realiza a série documental em três episódios Puberdade (1994-1996), concebida para circular na televisão. Filmados em 16mm e finalizados em vídeo, os três médias-metragens exploram diferentes perspectivas sociais sobre a adolescência.

Nos anos 2000, fotografa filmes paradigmáticos do cinema brasileiro recente, como O prisioneiro da grade de ferro (Paulo Sacramento, 2003) e Serras da desordem (Andrea Tonnaci, 2005), e realiza o curta Celeste (2009). Em 18 de maio de 2013, às vésperas de sua primeira retrospectiva como cineasta no forumdoc.bh daquele ano, é encontrado caído em uma rua da Vila Madalena, vítima provável de um ataque cardíaco.

Aloysio Raulino é responsável não apenas por uma assinatura autoral inconfundível como prolífico diretor de fotografia – participou em mais de cem filmes –, mas por uma das mais instigantes filmografias do cinema experimental brasileiro, na qual convivem gestos frequentemente considerados inconciliáveis: a devoção ao encontro com os sujeitos filmados e o trabalho construtivo da montagem; a força indicial da situação de filmagem e a meditação intelectual do ensaio; a atenção à integridade das falas dos homens e mulheres comuns e a intervenção analítica que recorre a citações literárias, filosóficas e musicais diversas; o improviso da performance e o anti-naturalismo da pose; as potências do direto e o gesto alegórico; o engajamento político e a liberdade da criação poética de vanguarda.

(por Victor Guimarães)


 

Filmografia como realizador:

1967 - São Paulo (16mm, p&b, 12’)*

1968 - Retorna, Vencedor (16mm, p&b, 11’)

1969 - Ensino Vocacional, codireção Jan Koudela, João Cândido, Plácido de Campos Jr., Roman Stulbach e Walter Rogério (35mm, p&b, 12’)

1969 - Rua 100, New York, codireção de Plácido Campos Jr. (16mm, p&b, 9’)

1970 - Lacrimosa (1970, 16mm, p&b, 12’, codireção de Luna Alkalay)

1970 - Arrasta a Bandeira Colorida (Carnaval de Rua em São Paulo), codireção Luna Alkalay (35mm, p&b, 12’)

1970 - A Santa Ceia (episódio do longa Vozes do Medo, coordenado por Roberto Santos) (35mm, p&b, 10')

1971 - Jardim Nova Bahia (35mm, p&b/cor, 15’)

1972 - Atelia/Atelier Infantil de Arte, codireção de Roman Stulbach (16mm, cor, 30’)**

1972 - Expressão Corporal, codireção de Roman Stulbach (16mm, cor, 10’)**

1972 - Espectadores, codireção de Denise Banho, Luís Paulo, Marcos Maia***

1974 - Teremos Infância (1974, 35mm, p&b, 12’)

1975 - Tarumã, correalização de Mário Kuperman, Guilherme Lisboa e Romeu Quinto (16mm, p&b, 14')

1976 - Apocalipsis (16mm, cor, 20’)

1977 - O Tigre e a Gazela (35mm, p&b, 14’)

1978 - O Porto de Santos (35mm, p&b, 20’)

1981 - A Morte de um Poeta (16mm, cor, 17’)

1982 - Noites Paraguayas (1982, 35mm, cor, 93’)

1986 - Inventário da Rapina (1986, 35mm, cor, 26’)

1991 - Como Dança São Paulo (1991, U-Matic, cor, 46’)

1992 - Credo, codireção de Reinaldo Volpato (1992, U-Matic, cor, 4’)

1994 - Graffitti: Nos Muros Recortados (1994, U-Matic, cor, 15’)

1994 - São Paulo Cinemacidade, codireção de Marta Dora Gronstein, Regina Meyer (35mm, cor, 30’)

1994 - Puberdade (16mm para BetaSP, cor, 51’)

1996 - Puberdade II (16mm para BetaDigital, cor, 49’)

1999 - Puberdade III (16mm para BetaDigital, cor, 45’)

2009 - Celeste (Mini-DV, cor, 6’)

 

*Filme considerado perdido.

**Filmes considerados por Aloysio Raulino como de encomenda.

***Filme mencionado em alguns documentos, mas com informações incompletas.