Jairo Ferreira (São Paulo-SP, 1945 - 2003). Cineasta e crítico de cinema paulistano, autor do livro Cinema de invenção (1986). Autodidata e apaixonado por filmes desde a infância, participa do Cineclube Dom Vital, ligado à igreja católica, onde se torna coordenador em 1966. Nesse ano assume, a convite do poeta Orlando Parolini, a coluna de cinema do jornal São Paulo Shimbun, periódico da comunidade nipônica baseada no bairro da Liberdade. Inicialmente escreve sobre os lançamentos japoneses nos cinemas do bairro; já após 1967 volta suas atenções ao cinema brasileiro, sobretudo o nascente Cinema Marginal paulistano, baseado na Boca do Lixo. Na coluna semanal, intitulada simplesmente Cinema e que perdurou até 1973, acompanha o surgimento e desenvolvimento das carreiras de cineastas do grupo marginal, escrevendo sistematicamente sobre as obras de realizadores como Ozualdo Candeias, Carlos Reichenbach, Rogério Sganzerla, entre outros.

 

Além de cronista da produção da Boca, participa de diversos filmes em funções como roteirista, assistente de direção e ator. Em 1973, dirige o curta metragem O guru e os guris, rodado em 35mm, documentário sobre o coordenador do Clube de Cinema de Santos, Maurice Legeard e sua paixão pelo cinema, com produção de Carlos Reichenbach. De 1975 a 1980, escreve como crítico contratado para a Folha de S. Paulo, priorizando sempre que possível o cinema brasileiro e cobrindo a continuidade da carreira dos cineastas do grupo marginal. Em 1975, dá início a uma prolífica produção em Super-8, rodando os curtas Ecos caóticos, uma homenagem ao poeta Sousândrade, precursor do modernismo; e O ataque das araras, em que acompanha uma equipe da Boca em filmagem de publicidade de cigarros na Amazônia. Ainda em 1975, inicia a realização de seu filme mais aventado, o longa-metragem em Super-8 O vampiro da cinemateca, finalizado em 1977, hoje um clássico do experimental brasileiro. Sobre a verve antropofágica do filme, uma mistura de diário e ensaio em que discute seu próprio processo, afirmou: “sou o vampiro da cinemateca, chupo filmes para renovar meu sangue”. Em Super-8 roda ainda o curta Antes que eu me esqueça (1977), registro do sarau de lançamento do livro homônimo, de Roberto Bicelli; e o média Horror Palace Hotel (1978), em que registra os bastidores de mostra paralela no Festival de Brasília em que participam os cineastas do grupo marginal. Nem verdade nem mentira (1979), curta rodado em 35mm na redação da Folha de S. Paulo, com fotografia de Carlos Reichenbach, mistura documentário e ficção para tratar dos bastidores da notícia. Em 1978 inicia a filmagem de O insigne ficante, seu segundo longa em Super-8, espécie de continuação dos procedimentos adotados em O vampiro da cinemateca, em que discute sobretudo o conceito de “invenção”. Jairo Ferreira inicia a escrita de Cinema de invenção, livro que trata do cinema experimental produzido no Brasil, seus realizadores e filmes, em 1977.

 

O termo “invenção”, cunhado pelo poeta e crítico literário Ezra Pound em seu ABC da literatura (1934), para quem “inventores” são escritores que “descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo”, foi transposto por Ferreira do âmbito da literatura para o do cinema, enquanto alternativa para termos como “experimental” e “vanguarda”. Após longa gestação, Cinema de invenção é publicado em 1986. Nos anos 80, atua na assessoria de imprensa da Embrafilme em São Paulo e escreve para O Estado de S. Paulo e Cine Imaginário, entre outros periódicos. Em 1993, realiza em vídeo As aventuras de Raul Seixas na cidade de Toth, homenagem supra sensorial ao roqueiro baiano. Suicida-se em 23 de agosto de 2003, momentos antes de completar 58 anos.

 

(por Renato Coelho Pannacci)

 

Filmografia:

 

1973 - O guru e os guris (35mm, 11')

1975 - Ecos caóticos (Super-8, 14')

1975 - O ataque das araras (8mm, 11')

1977 - O vampiro da cinemateca (Super-8, 64')

1977 - Antes que eu me esqueça (Super-8, 16')

1978 - Horror Palace Hotel (Super-8, 50')

1979 - Nem verdade nem mentira (35mm, 10'30")

1980 - O insigne ficante (Super-8, 60')

1993 - Metamorfose ambulante ou As aventuras de Raul Seixas na cidade de Toth (vídeo, 19')