LUNA ALKALAY (Milão/Itália, 1947). Diretora e roteirista, iniciou sua carreira nos anos 1970. Assim como as demais pioneiras do chamado cinema moderno brasileiro, possui uma filmografia sucinta na direção de cinema com um total de quatro curtas e dois longas-metragens. Foi somente em 2001 que Alkalay viu parte de sua obra ser associada a uma perspectiva experimental, quando seu primeiro longa, Cristais de Sangue (1974/75), juntamente a Lacrimosa (1970), foram incluídos na mostra Cinema Marginal Brasileiro.

Nascida em Milão, Alkalay emigrou para São Paulo ainda criança. Seu contato com o cinema ocorreu após a entrada no curso de Filosofia da USP, com a participação, em diferentes funções, nos curtas-metragens dos colegas da Escola de Comunicações e Artes. Seus primeiros trabalhos na direção foram dois curtas fundamentais, frutos da parceria de longa data com o fotógrafo, cineasta, e então companheiro, Aloysio Raulino. Em Arrasta a Bandeira Colorida (1970), fotografias still, pontuadas por breves trechos filmados, registram o carnaval de rua paulistano, enquanto certa intenção documental dá lugar ao transe que se materializa na tessitura fílmica. Em Lacrimosa, os planos-sequência escancaram as entranhas da metrópole paulista – um microcosmos da sociedade brasileira pós-AI-5 –, cindida entre a pobreza extrema e um ideal desenvolvimentista aniquilador. Já Cristais de Sangue (1974/75), que é precedido do curta Sangria (1973), é um longa singular: fortemente alegórico, ele é conduzido pela deambulação atemporal de seus quatro protagonistas, investindo em encenações pontuadas por registros documentais. Sua carga simbólica atinge uma espécie de abstração, sugerindo relações nada óbvias com o cenário político da época. O segundo longa-metragem de Alkalay viria após um hiato de trinta anos. Estados Unidos do Brasil (2005) traça um paralelo entre pessoas comuns que sonham ser outras e um país que almeja ser diferente. Assim como Dia de Vaquejada, curta que ela co-realizou com André Luiz Oliveira, em 1976, essa parcela da sua produção possui um assumido viés documental. Essa se tornaria, aliás, a tônica dos trabalhos realizados nas últimas décadas, nos quais atuou majoritariamente como diretora e roteirista para a televisão e filmes institucionais. Cada qual a seu modo, as obras que compõem a potente filmografia de Luna Alkalay evidenciam a proposta de aliar crítica social, investigação estética e marcado posicionamento político, sempre em consonância com as vicissitudes do seu tempo.

 

(por Carla Italiano)

 

FILMOGRAFIA

 

1970 - Arrasta a Bandeira Colorida (Carnaval de rua em São Paulo), codireção Aloysio Raulino (35mm, 11')

1970 - Lacrimosa, codireção Aloysio Raulino (16mm, 12')

1972 - Sangria (16mm, 15')

1974/75 - Cristais de sangue (35mm, 80')

1976 - Dia de Vaquejada, codireção André Luiz Oliveira (35mm, 10')

2005 - Estados Unidos do Brasil (digital, 71')