Ana Carolina Teixeira Soares (São Paulo-SP, 1946). A paulistana Ana Carolina chega ao cinema como assistente de direção de Walter Hugo Khouri em As amorosas (1968). Antes de decidir investir nessa área, ela havia passado pelos cursos de Medicina da USP e Ciências Sociais da PUC-SP. Chegou também a estudar cinema na Escola Superior de Cinema São Luís, por onde também passaram, entre outros, Paulo Rufino, Carlos Reichenbach, Carlos Alberto Ebert e João Callegaro. Ainda enquanto estudante, funda e é percussionista do grupo musical Musikantiga.

Entre 1967 e 1973, realiza diversos curtas e médias-metragens, entre eles o premiado Lavra-dor (1968), com Paulo Rufino, e Indústria (1969). Lavra-dor tem o espírito da época. Filme engajado, reflete um cinema que toma a posição do povo. No entanto, como aponta Jean-Claude Bernardet no capítulo que dedicou ao filme em Cineastas e imagens do povo, aqui não se trata de assumir uma posição paternalista - e, nesse sentido, esse curta dá um passo à frente em relação aos chamados "documentários sociológicos" da fase anterior do Cinema Novo ao questionar o próprio ideário da época, que via o cinema enquanto ferramenta para uma revolução social. Aqui, identificamos certo niilismo e resignação quanto ao papel do cinema, embora a indignação ainda seja um motor para a construção de um discurso pungente. Não à toa, o filme é referido pelo teórico como uma das mais radicais obras analisadas em seu livro seminal acima citado, sendo "o primeiro que faz referência ao poder militar e à luta camponesa, o primeiro que tem uma visão internacionalista". Aqui a montagem é central e a significação emana da própria estrutura do filme. Trabalha-se sobretudo com material de arquivo - o que se repetiria no primeiro longa de diretora, Getúlio Vargas (1974) - e o ritmo das imagens segue o ritmo de trechos do poema de Mário Chamie. Questionando sua filiação ao gênero ao qual mais poderia se identificar - "documentário?" - o filme, segundo Bernardet, muda a perspectiva do cinema documentário no Brasil.

Em 1974, Ana Carolina estreia na direção de longas-metragens com o documentário Getúlio Vargas, em que trata dos anos em que o estadista permaneceu no poder. Os cenários socioeconômico e político são privilegiados neste filme de montagem que se vale de materiais de arquivo (fotos, imagens em movimento, áudios da época) para dar conta de uma parte relevante da história do Brasil moderno, que não deixa de ser permeada por populismo, autoritarismo e censura. Aqui, a opção é por uma voz off que emana autoridade sobre o assunto e quem a encarna é Paulo César Pereio. A música é de Jards Macalé.

No mesmo ano em que realiza Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, com Jorge Durán e Murilo Salles, funda a produtora Crystal Cinematográfica. Em 1977, filma em 16mm um projeto realizado junto com os alunos do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense, Nelson Pereira dos Santos saúda o povo e pede passagem, em que capta depoimentos de diversas personalidades do cinema e pessoas próximas ao cineasta em torno de sua figura.

No ano seguinte, lançaria o primeiro filme de sua trilogia sobre o universo feminino, Mar de Rosas. Realizada de maneira espaçada, a trilogia se completaria quase dez anos depois com os filmes Das tripas coração (1982), pelo qual ganhou o Kikito de Ouro de melhor diretora no Festival de Gramado, e Sonho de valsa (1987). Na época do lançamento deste último, ela diria: "[São] Três momentos do mesmo tema, da mesma busca, da mesma pesquisa de linguagem , que se resumem num mergulho na busca da identidade e tudo que isso implica. [...] Mar de Rosas é o começo do mergulho; Das Tripas coração é a chegada ao fundo, um filme exacerbado, escuro, de águas profundas, confuso; Sonho de valsa é a subida de volta à superfície"1. Muito embora, a essa altura tenha já construído uma filmografia referencial no que diz respeito a retratar a condição da mulher e as questões femininas, sempre recusou para si e para sua obra os rótulos de engajada e feminista.

Seu longa-metragem seguinte, Amélia, sobre a passagem da atriz francesa Sarah Bernhardt no Brasil, só seria realizado mais de uma década depois de Sonho de valsa, em 1999. Em 2002, realiza Gregório de Mattos, com Waly Salomão no papel título, e em 2013, A primeira missa ou tristes tropeços, enganos e urucum.

 

(Liciane Mamede)

 

Filmografia

1967 - Feira (16mm, pb, curta-metragem)

1968 - Lavra-dor, codireção de Paulo Rufino (35mm, pb, 11')

1969 - Indústria (35mm, cor, 15')

1969 - Monteiro Lobato (curta-metragem)

1970 - Guerra do Paraguai (curta-metragem)

1970 - A fiandeira, codireção de Paulo Rufino (35mm, cor, 11')

1970 - Três desenhos (35mm, cor, 5')

1971 - Pantanal do Mato Grosso (curta-metragem)

1974 - Getúlio Vargas (35mm, pb, 76')

1975 - Anatomia do espectador (35mm, cor, 21')

1977 - Mar de rosas (35mm, cor, 90')

1978 - O sonho acabou (curta-metragem)

1978 - Salada paulista (curta-metragem)

1982 - Das tripas coração (35mm, cor, 108')

1987 - Sonho de valsa (35mm, cor, 96')

2000 - Amélia (35mm, cor, 130')

2002 - Gregório de Mattos (35mm, pb, 66')

2013 - A primeira missa ou tristes tropeços, enganos e urucum (digital, cor, 92')

 

 

Referências:

BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

COTTA, Ricardo. "Ana Carolina". In: Revista de Cinema, n. 9, out e nov/1997. pp. 30-31.

LOBATO, Ana Lúcia. "Cineasta do mês: Ana Carolina". In: Cinemin, n. 77, jun/1992. pp. 40-41.

RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe Miranda (orgs.). Enciclopédia do cinema brasileiro. 3ª ed. São Paulo: Senac, 2012.

 

 

1 LOBATO, Ana Lúcia. "Cineasta do mês: Ana Carolina" In: Cinemin, n. 77, jun/1992. p. 40-41.