Vivian Ostrovsky (Nova Iorque/EUA, 17 de novembro de 1945). Russos de origem judia, os Ostrovsky chegam ao Rio de Janeiro vindo dos Estados Unidos em 1946; sua filha Vivian tinha seis meses de idade. Nesse período inicial, a família consegue se manter no país graças ao trabalho de sua mãe, Anya, fotógrafa. George Ostrovsky, pai de Vivian, engenheiro, demoraria um pouco mais para se inserir profissionalmente devido ao impeditivo da língua.

Ainda na infância, ela tem acesso às primeiras câmeras filmadoras; primeiro uma 8mm e depois, uma Super-8. Até os 17 anos, mora no Rio de Janeiro, onde completa seus estudos secundários. A partir daí, segue para Paris, se matriculando no curso de Psicologia do Institut de Psychologie. Uma vez formada e já assídua frequentadora da Cinemateca francesa em tempos de Henri Langlois como seu diretor, decide continuar seus estudos na área cinematográfica na Universidade Sorbonne-nouvelle - Paris 3, onde tem aulas com Eric Rohmer.

A partir de 1975, junta-se a Rosine Grange para fundar a Ciné-femmes international, associação dedicada a promover, distribuir e exibir filmes de cineastas mulheres. No mesmo ano, participa da organização de um grande festival de filmes de mulheres em Paris e também do International Symposium of Women in Film, promovido pela UNESCO, em Saint-Vincent, Itália. Nesta segunda metade dos anos 1970, dedica-se ainda a viajar pela Europa numa velha perua Renault a fim de promover os filmes de mulheres que distribuía em diversos festivais do continente.

Na virada dos anos 1970 para os anos 1980, com a amiga Martine Rousset, decide finalmente lançar-se na direção de filmes. Em 1980, realizam juntas Carolyn II (30'), o segundo curta da trilogia que Rousset dedica à dançarina e coreógrafa Carolyn Carlson. A influência de Martine também foi decisiva para que Vivian começasse a enxergar no seu arquivo pessoal de imagens captadas em Super-8 um rico material.

Em Provença, região sul da França, mesmo local onde são captadas as cenas que integrariam Allers venues, curta que Ostrovsky monta em 1984, Martine inicia a amiga no métier de montadora. A partir deste momento inaugural, vieram os vários filmes de montagem em formato curto que compõem a filmografia da cineasta, todos realizados a partir de um minucioso trabalho de edição de imagem e som.

Entre eles, destacamos quatro obras realizadas nos anos 1980: Copacabana Beach (1983), Allers venues (1984), U.S.S.A. (1985) e Trois étoiles (1987). Para a realização de todos eles, Ostrovsky parte de seu acervo pessoal de imagens em Super-8, mas faz uso de sons provenientes de diversas fontes: canções populares, locuções de rádio, conversas de rua, onomatopeias. A interação entre essas duas instâncias, som e imagem, acaba por produzir as gags sobre as quais alguns dos filmes vão fortemente se ancorar; é o caso de Copacabana Beach. O som tem também, nos filmes de Ostrovsky, a função de romper com o caráter rígido das imagens, tornando-as mais leves; o resultado da combinação é quase sempre algo que flerta com o lúdico. Assim, por exemplo, a trilha sonora do início de U.S.S.A. é toda construída no sentido de ressignificar o cortejo solene que acontece na Praça Vermelha em Moscou, junto ao mausoléu de Lênin.

A partir dos anos 1990, Ostrovsky começa a incorporar com maior frequência em seus filmes imagens de outros arquivos. Nesse sentido, destacamos Work and Progress (1999), Nikita Kino (2002) e Ice/Sea (2005). Todos eles se valem de imagens provenientes de um fundo depositado no final desta mesma década, na Cinemateca de Jerusalém (aliás, criada graças à iniciativa de seu pai) e anteriormente pertencente ao Partido Comunista de Israel.

Graças a esse fundo, Ostrovsky realiza Nikita Kino (45'), filme auto-biográfico e peça fundamental em sua filmografia. Nele, imagens da antiga União Soviética se mesclam a filmagens domésticas para contar sobre suas visitas à parte da família Ostrovsky que, naqueles idos dos anos 1960 e 1970, ainda vivia sob o comunismo. A voz off, incomum nos filmes da cineasta, irá aqui testemunhar impressões de sua infância sobre um mundo que não mais existe.

Vivian Ostrovsky sempre filmou em Super-8, porém, antes do advento do digital, seus filmes eram, como regra, finalizados em suporte película 16mm. Neste caso, a primeira montagem era comumente realizada sobre o reversível em Super-8. A partir deste material, extraía-se um negativo em 16mm e a montagem era afinada. A cópia final era tirada em 16mm. Entretanto, a partir de Nikita Kino, a montagem de suas obras passa a ser feita em ilha de edição digital e a cópia final, entregue em formato digital.

Desde o início dos anos 2000, ela já trabalhou com diversos tipos de câmeras digitais, desde mini-dv a Iphone. Recentemente, decidiu voltar a filmar em Super-8. Atualmente, vivendo entre os Estados Unidos, França, Brasil e Israel, trabalha em seu próximo filme, um projeto sobre a escritora norte-americana Elizabeth Bishop, que, como ela mesma, em sua trajetória, manteve fortes laços com nosso país.

 

(por Liciane Mamede)

 

Filmografia

 

1980 - Carolyn II, codireção Martine Rousset (30')

1980 - Top Ten Designers in Paris: Karl Lagerfeld (episódio de uma série de programas sobre estilistas e sua coleção de 1980), codireção Nicole Deschaumes, Philippe Grandrieux, Olivier Guiton, Jérôme de Missolz, Evelyne Ragot (Super-8, finalizado em 16mm, 8')

1982 - Movie (V.O.) (Super-8, finalizado em 16mm, 9')

1983 - Copacabana Beach (Super-8, finalizado em 16mm, 10')

1984 - Allers venues (Super-8, finalizado em 16mm, 12')

1985 - U.S.S.A (Super-8, finalizado em 16mm, 12')

1987 - Trois étoiles (Super-8, finalizado em 16mm, 12')

1988 - Eat (Super-8, finalizado em 16mm, 15')

1992 - M.M. in Motion (Super-8, finalizado em 16mm, versão curta: 20', versão longa: 45')

1995 - Uta Makura (Pillow Poems) (Super-8, finalizado em 16mm, 20')

1996 - Public Domain (Super-8, finalizado em 16mm, 13')

1997 - American International Pictures (Super-8, finalizado em 16mm, 4'30")

1999 - Work and Progress (Super-8, finalizado em 16mm, 12')

2002 - Nikita Kino (diversos formatos, finalizado em digital, 40')

2005 - Ice/Sea (diversos formatos, finalizado em digital, 32')

2007 - Telepattes (digital, 10'35")

2008 - Fone sur follies (digital, 11')

2008 - Ne pas sonner (diversos formatos, finalizado em digital, 8')

2009 - The Title Was Shot (diversos formatos, finalizado em digital, 9')

2009 - Tatitude (diversos formatos, finalizado em digital, 4')

2010 - P.W. - Pincéis e Painéis (diversos formatos, finalizado em digital, 16')

2011 - Whatever Was Never There (Super-8, finalizado em digital, 6')

2013 - CORrespondências e REcorDACÕES (diversos formatos, finalizado em digital, 11')

2014 - Losing the Thread (diversos formatos, finalizado em digital, 8')

2016 - But Elsewhere Is Always Better (diversos formatos, finalizado em digital, 4')

2017 - Dizzymess (diversos formatos, finalizado em digital, 7')

2018 - Hiatus (diversos formatos, finalizado em digital, 6')

2019 - Unsound (diversos formatos, finalizado em digital, 4')