Cristina Amaral (Presidente Venceslau/SP, 1954). Mensurar a magnitude da obra de Maria Cristina Amaral não é tarefa fácil. A montadora e cineasta paulista, formada pela ECA/USP no início dos anos 1980, esteve à frente da montagem de mais de sessenta títulos no decorrer de quase trinta e cinco anos de trajetória. Se atentarmos para a invisibilização que ronda o ofício de profissionais da montagem desde os primórdios do cinema, principalmente quando mulheres, e sobretudo quando são negras, as mãos que cortam a película ou operam a moviola, o atual reconhecimento da contribuição de Cristina Amaral para o cinema brasileiro torna-se feito particularmente significativo.

Os primeiros curtas, montados ainda na universidade, levaram ao aprendizado junto a profissionais experientes, como Sylvio Renoldi e Umberto Martins (este que foi responsável por sua breve incursão no mundo da publicidade). Seu estilo e método singulares têm o potencial de se reconfigurar a cada nova parceria, formulando relações de trabalho, e de afeto, materializadas nos filmes de alguns dos mais notórios cineastas do país — artistas experimentais por princípio e postura de vida. Como no trabalho do baiano Edgard Navarro, para quem ela montou O homem que não dormia (2010) e outros; de Carlos Reichenbach (1945-2012), com quem trabalhou em todos os filmes após Alma corsária (1993); e, é claro, do italiano radicado no Brasil Andrea Tonacci (1944-2016), companheiro de cinema e vida ao longo de duas décadas.

Junto a Tonacci, além de coordenar a produtora Extrema Produção Artística, Amaral contribuiu para a criação de obras inquietantes de aguçado apuro formal, tais como Serras da desordem (2006), longa no qual temporalidades históricas e subjetivas se imiscuem na trajetória do indígena Carapiru; ou Já visto jamais visto, o último filme de Tonacci, com proeminente caráter experimental, que resgata materiais pessoais de modo a fabular memórias que são, a um só tempo, vividas, filmadas, sonhadas.

Da filmografia de Amaral nos anos 1990, destaca-se ainda A voz e o vazio: a vez de Vassourinha (1998), um dos poucos filmes do pesquisador e cineasta experimental Carlos Adriano não montado por ele. Em ritmo sincopado, o curta concatena um rico material de arquivo das décadas de 1920-40, composto por vestígios visuais e sonoros, a fim de elaborar filmicamente a vida e a obra do sambista paulistano Vassourinha.

Por fim, dentre as várias parcerias que marcaram a carreira da montadora, ressaltamos o encontro com a antropóloga e cineasta Raquel Gerber, com quem Amaral co-dirigiu seu único filme: Abá, de 1992. O curta resulta do processo de feitura de Orí (1989), longa anterior de Gerber, no qual a montadora fez assistência de direção e montagem adicional, dedicado à energia da diáspora afro-americana vista pelas manifestações religiosas e culturais afro-brasileiras. Abá elabora uma poesia fílmica a partir da costura de recorrências históricas, musicais, transatlânticas e negras, sob a égide de uma montagem "cósmica", resultando em um trabalho experimental de rara beleza.

 

(por Carla Italiano)

 

Filmografia (com recorte experimental)

 

Como diretora:

1992 - Abá, codireção Raquel Geber (4', 16mm, 1992)

 

Como montadora:

1994 - Olhar e sensação (35mm, 10'), direção: Carlos Reichenbach

*fez também a Edição de som

1994 - Óculos para ler pensamentos (vídeo, 20'), direção: Andrea Tonacci

1998 - A Voz e o vazio - A vez de Vassourinha (35mm, 15'), direção: Carlos Adriano

2000 - A ira (35mm, 20'), direção: Joel Yamaji

2002 - Equilíbrio & graça (35mm, 12'), direção: Carlos Reichenbach

2005 - Serras da desordem (35mm, 135'), direção: Andrea Tonacci

2013 - Já visto, jamais visto (HD, 54'), direção: Andrea Tonacci

 

Filmografia ampliada

1993 - Alma corsária (35mm, 112'), direção: Carlos Reichenbach - Prêmio Melhor Montagem de Longa Metragem - FESTIVAL DE BRASÍLIA 1993

1995 - Jouez encore, payez encore, direção: Andrea Tonacci - Montagem da versão reduzida de 65' (Montagem original: Andrea Tonacci e Roman Stulbach)

1997 - Biblioteca Nacional, direção: Andrea Tonacci (vídeo, 23')

1998 - Theatro Municipal de São Paulo, direção: Andrea Tonacci (vídeo, 60')

1999 - Dois Córregos, direção: Carlos Reichenbach (35mm, 112')

2000 - Para ver TV, tem que ficar ligado, direção: Andrea Tonacci (vídeo, 7')

2002 - Guarnicê - fragmentos & souvenirs, direção: Carlos Reichenbach (vídeo, 23')

2003 - Garotas do ABC, direção: Carlos Reichenbach (35mm, 130')

2004 - Bens confiscados, direção: Carlos Reichenbach (35mm, 108')

2007 - Falsa loura, direção: Carlos Reichenbach (35mm, 105')

2008 - Benzedeiras de Minas, direção: Andrea Tonacci (digital, 26')

2010 - O Homem que não dormia, direção: Edgard Navarro (35mm, 100')

2017 - Abaixo a gravidade, direção: Edgard Navarro, (digital, 109')