Alberto de Almeida Cavalcanti (Rio de Janeiro/RJ, 1897 – Paris/França, 1982). Nasceu em uma casa da rua Álvaro Ramos, em Botafogo, Rio de Janeiro, em 6 de fevereiro de 1897. Começou os estudos na Faculdade Nacional de Direito aos 15 anos, curso que não concluiu em razão de sua expulsão motivada por questões políticas. Com 16 anos foi para Suíça, onde se formou em arquitetura na Escola de Belas Artes de Genebra. Sua trajetória esteve ligada a momentos decisivos da história do cinema mundial. Trabalhou em mais de 100 produções, isto feito na França, Inglaterra, Suíça, Áustria, Romênia, Itália e Israel, exercendo várias funções (como diretor, roteirista, cenógrafo, montador e sonoplasta). Era conhecido como Cav, para os ingleses; e Albertô, para os franceses. No Brasil, realizou apenas seis filmes, sendo três direções - Simão, o caolho (1952), Canto do mar (1954) e Mulher de verdade (1954) – e três produções - Caiçara (1950, direção: Adolfo Celi), Terra é sempre terra (1951, dir: Tom Payne) e Ângela (1951, dir: Tom Payne e Abílio Pereira de Almeida).

 

Sua iniciação na atividade cinematográfica foi com a vanguarda francesa dos anos 1920. Fez parte de uma das gerações mais importantes, que incluía Abel Gance, Germaine Dulac, Jean Epstein, Marcel L’Herbier, Louis Delluc, entre outros. Começou em 1923 como cenógrafo, trabalhando em filmes do cineasta Marcel L’Herbier: Résurrection (1923), L'Inhumaine (1924) e O Falecido Mathias Pascal (1925). Também colaborou com L'inondation (1924), de Louis Delluc. Nesse período, teve proximidade com alguns dos principais artistas da época, como os pintores Fernand Léger e André Derain e o escritor André Gide. Sua estreia como diretor foi Le train sans yeux (1926). No mesmo ano, realiza o clássico Rien que les heures. Cavalcanti retrata Paris aliando a experimentação formal à temática social, mostrando contradições da capital francesa, da aurora ao amanhecer. A obra se inscreve na tradição das “sinfonias da cidade”, vertente em voga entre as vanguardas históricas. Outros filmes da fase francesa que merecem destaque são En Rade (1927), La P’tite Lili (1927) e Yvette (1928). Em 1929, Cavalcanti é convidado a participar do 1º Congresso Internacional do Cinema Independente (CICI), que ocorreu na cidade de La Sarraz, Suíça, entre os dias 2 a 7 de Setembro. O objetivo desse encontro foi debater os entendimentos e problemas em torno do significado da vanguarda no cinema. Fizeram parte das discussões diretores, técnicos, programadores de salas especializadas, críticos e teóricos. Sergei M. Eisenstein, Edouard Tissé, Hans Richter, Béla Balázs, Walter Ruttmann e Léon Moussinac são alguns dos membros desse congresso. Na ocasião foi criada a Liga Mundial de Cineclubes e uma Cooperativa Internacional do Filme Independente. O Congresso Internacional do Cinema Independente teve outras edições, sempre renovando seus participantes.

 

No ano de 1934, Cavalcanti foi convidado por John Grierson a integrar a equipe da General Post Office (GPO) Film Unit, instituição ligada ao Departamento de Comunicação dos Correios da Inglaterra. Esse é um marco decisivo do documentário social inglês da década de 1930. Sua primeira colaboração foi na função de sonoplasta, criando a trilha sonora do filme Graton Trawker (1934). Suas principais realizações nessa fase são Pett and Pott (1934) e Coal Face (1936). Supervisionou o trabalho de Basil Wright, Humphrey Jennings, Pat Jackson e Len Lye, um dos pioneiros do cinema de animação experimental. Em 1937 Cavalcanti assumiu a função de coordenador-geral no lugar de Grierson, onde ficou até 1942. Ainda na Inglaterra, trabalhou na produtora Ealing Studios, atuando como produtor e diretor. Foi nesse contexto que dirigiu seus dois maiores sucessos de público: os episódios Christimas Party e The Ventriloquist’s Dummy, que integram o longa-metragem de terror Na Solidão da noite (Dead of Night, 1945) e Nicholas Nickleby (1946), adaptação de um romance escrito por Charles Dickens.

 

Em 1949, retorna ao Brasil para proferir uma série de dez conferências a convite de Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi no Museu de Arte de São Paulo (MASP), instituição com então dois anos de existência. Nessa mesma viagem, foi chamado pelo empresário Franco Zampari para dirigir os estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Cavalcanti foi o responsável pela vinda de técnicos europeus para trabalhar nas produções nacionais. Teve desentendimentos profissionais e logo foi demitido. Em seguida, ajudou na criação de outra produtora do cinema industrial paulista, a Cinematográfica Maristela. Da mesma forma, sua participação foi rápida nessa produtora. Nessa passagem pelo seu país natal, escreveu e publicou o livro Filme e realidade (1952), antologia com suas ideias e teorias sobre a arte cinematográfica. Também elaborou um projeto embrionário do Instituto Nacional de Cinema (INC) a pedido do presidente Getúlio Vargas. Permanece no Brasil até 1954, quando decide retornar para a Europa. Morre em Paris, em 23 de agosto de 1982, após um ataque cardíaco. Alberto Cavalcanti foi sempre um enfant terrible: rebelde, inovador, transgressor tanto em quesitos comportamentais como artísticos, foi durante muito tempo um dos cineastas brasileiros mais conhecidos e respeitados no exterior.

 

(por Lucas Murari)

 

Filmografia não exaustiva (como diretor)

 

França:

1926 - Le train sans yeux

1926 - Rien que les heures

1927 - En Rade

1927 - Yvette

1927 - La P’tite Lille

1927 - La Jalousie du barbouillé

1928 - Le Capitaine Fracasse

1929 - Le Petit chaperon rouge

1929 - Vous verrez la semaine prochaine

1930 - Toute sa vie

1930 - A Canção do Berço

1930 - A mi-chemin du ciel

1930 - Les Vacances du diable

1931 - Dans une île perdue

1932 - En lisant le journal

1932 - Le jour du frotteur

1932 - Revue montremartroise

1932 - Nous ne ferons jamais de cinéma

1932 - Le truc du brésilien

1933 - Le mari garçon

1933 - Coralie et cie

1933 - Plaisir defendus

1933 - Tour de chant

1933 - Pour un piano

1967 - Ainsi parlait Theodor Herzl

1969 - Les empaillés

1971 - La visite de la vieille dame

1975 - Le Voyageur du silence

 

Inglaterra

1934 - Petit and Pott

1934 - New Rates

1936 - Coal Face

1937 - Line to Tcherva Hut

1937 - We Live in Two Worlds

1937 - Who Writes to Switzerland

1937 - Message from Geneve

1937 - Four barriers

1938 - Happy in the Morning: A Film Fantasy

1938 - Mony a Pickle, codireção de Richard Massingham e Norman McLaren

1939 - Midsummer day’s work

1939 - Men of the alps

1940 - Young Veteran

1940 - Mastery of the Sea

1941 - Yellow Caesar

1942 - Film and Reality

1945 - Dead of Night

1947 - The Life and Adventures of Nicholas Nickleby

1947 - They Made Me a Fugitive

1962 - The Monster of Highgate Ponds

1962 - Yerma

 

Brasil

1952 - Simão, o caolho (35mm, 95', pb)

1954 - O Canto do mar (35mm, 87', pb)

1954 - Mulher de verdade (35mm, 103', pb)

 

Suíça

1942 - Trois chants pour la France

1942 - Went the day well?

1942 - Champagne Charlie

 

Áustria

1960 - Herr Puntila und sein Knecht Matti

 

Itália

1959 - Les Noces vénitiennes