Paulo Bruscky (Recife-PE, 1949). Atua como artista visual das mais diversas linguagens. Inicia sua criação com desenho, pintura e gravura quando produz seus primeiros livros de artista, prática recorrente na sua obra vindoura. No final dos anos 1960, relaciona-se diretamente com os debates da arte conceitual no país, passando a realizar experiências com performance, áudio-arte, artdoor, videoarte. Ingressa no Movimento Internacional de Arte Postal em 1973 e, nos anos seguintes, troca correspondências com os grupos Fluxus e Gutai, reunindo vasta coleção a ser reconhecida décadas depois, ao passo que seria notada em sua obra um pioneirismo no desbravamento de fronteiras e meios que marca as buscas expressivas daquele período. Sua poética, inclusive cinematográfica, com frequência está às voltas com o processo maquínico, com a política do controle e da liberdade, com a natureza do espaço público e com as semânticas da repetição e da cópia.

Seu cinema começa com o registro de performances e exposições no Recife, sobretudo em Super-8. Em Arte Cemiterial (1971), promove cortejo fúnebre para lançar pesquisa com a xerografia artística, prática com base em fotocopiagem que propõe a radicalização dos alcances da reprodutibilidade em busca de uma "arte sem original", sobre a qual publica artigo em 1985. Na ocasião do happening, jornais registram que a Galeria da Empetur nunca esteve tão cheia, em especial pelo público jovem. O caixão, que o artista chega a ocupar, é depois retirado pela direção da instituição, temerosa de sua afronta aos bons costumes.

Artexpocorponte (1971), Arte/Pare (1973) e Poesia Viva (1977), que registram outras agitações em espaço público, são exemplos de ações cujo teor contracultural leva Bruscky a ser preso três vezes: em 1968, durante uma passeata; em 1973, em exposição-happening promovida com colegas na Boate Chantecler — após solto, introduz em resposta o Manifesto Nadaísta, em exposição sem obra alguma, mas com coquetel. Por fim, é detido em 1976, ao organizar, com Daniel Santiago, a segunda Exposição Internacional de Arte Correio em Recife, fechada por militares.

Bruscky investiga natureza e possibilidades do cinema em obras conceituais, algumas nunca filmadas. Em 1977, concebe A máquina de filmar sonhos, um dispositivo que, inserido numa fissura em seu crânio, seria capaz de registrar visões oníricas em película a cores, e que chega a anunciar em páginas de classificados. Funcionário do Hospital Agamenon Magalhães, faz amizade com neurologista e tem acesso a aparelho de encefalografia, desenvolvendo Registros (O meu cérebro desenha assim) (1979), filme realizado com imagens de encefalograma do próprio artista, hoje adquirido pelo MoMA. Alterações plásticas, sensíveis aos movimentos de sua face, seriam capazes de traduzir sentimentos e mesmo ideias tão distintas quanto a "solidão" e a "nacionalidade", como escreve o artista. Entre 1979 e 1982, realiza cerca de 30 filmes.

Trabalhos como Viagem numa paisagem de Magritte I (1979), filmagem do retrovisor de carro em movimento, ganham versões em Super-8 e em equipamento de vídeo U-matic — emprestado pelo Departamento de Telecomunicações de Pernambuco —, no intuito de notar diferenças de "velocidade e mo(vi)mento" entre "vídeo e cinema". Em Poema (1979), a provocação narrativa: a película é montada a partir de pontas de rolo de outros filmes, portanto apenas com inícios e fins. O artista remete tais experiências à noção de "quase-cinema" de Hélio Oiticica, nomeadas por Bruscky como Cinema de Inversão/Invenção. Ainda em 1979, coordenador de artes plásticas da Universidade Católica de Pernambuco, cura a 1ª Mostra Internacional de Vídeo Arte.

Introduz no ano seguinte o xerofilme, técnica baseada em experimentos com a máquina xerográfica, filmadas quadro a quadro e então animadas. Em LMNUZX, fogo! (1980), incendeia objetos sobre o visor da fotocopiadora. Em Xeroperformance (1980), fotocopia seu próprio corpo. Diz ter na câmera "parte da ação, desmistificando o seu papel de instrumento de registro técnico neutro e objetivo". A experiência do trânsito, interesse em filmes como Registros de viagem (1979), é objeto em trabalho conceitual que apresenta como derivação do xerofilme: Via férrea – cine percurso (1980) propõe a "realização e projeção de um filme sem filmadora e projetor, até hoje inviável por falta de patrocinador". Um sistema de espelhos, instalado em abertura no piso de um vagão de trem em movimento, projetaria imagens dos trilhos em uma tela em seu interior, e abriria então, escreve o artista, um "enorme campo" ao "cinema experimental".

Em 1981, recebe a Bolsa Guggenheim de artes visuais e reside por um ano em Nova York, onde compra uma câmera Super-8 com que filma seu dia a dia. "Mo(vi)mento", espaço público e acaso são re-explorados em A grande marcha (1982), Arquitetura do imaginário (1982) e Reflection (1982), no qual experimenta a simultaneidade entre três fluxos de imagens de registros cotidianos. Em desenho, arquiteta o dispositivo de Aépta (1980), xerofilme baseado em fotogramas de linhas de costura em movimento sobre uma moldura de slide. Roteiro para reflexos I (1982), que da janela de um ônibus capta a confusão entre imagens externas e internas, ganha nova versão em Roteiro para reflexos II (1982), em passagem por Amsterdã. Expõe suas propostas conceituais para cinema nos dois países.

Mostra sua produção em arte postal na 16ª Bienal de São Paulo, em 1981, primeira de frequentes participações no evento. Seu ateliê, que então acumula vasta coleção de correspondências, é remontado na 26ª edição da exposição, em 2004. Desenvolve videoinstalações a partir de 1983. Sua produção de filmes, mais rarefeita dos anos 1990 em diante, ganha reedições de antigas propostas com o advento de suportes digitais, como Meu cérebro desenha assim II (2007), e novos experimentos com performance, como Operação nas Cataratas de Foz do Iguaçu (2012) e Jogo-perfomance (2012), no qual filma partida de futebol em que jogadores disputam, todos contra todos, duas bolas, com versões em Nova York, Recife e Belo Horizonte. Em 2014, sua filmografia ganha foco na exposição "Paulo Bruscky: artist books and films (1970-2013)", na Galeria Nara Roesler, e na mostra "Paulo Bruscky em movimento", realizada no CCSP como parte do projeto "O quasi cinema de Paulo Bruscky". Bruscky tem obras no acervo de instituições como Tate Gallery, Guggenheim Museum, MAM-SP e Museu d’Art Contemporani de Barcelona.

 

(por Luís Fernando Moura)

 

FILMOGRAFIA

 

1971 - Arte Cemiterial (16mm, versão em Super-8/VT/VHS, 3', p/b, mudo)

1972 - Artexpocorponte (Super-8, 2'30, cor, mudo)

1973 - Arte/Pare (Super-8, 2'30, cor, mudo)

1977 - Poesia Viva, codireção Jomard Muniz de Britto (Super-8, 7', cor, som)

1979 - Registros (O meu cérebro desenha assim) (U-matic, 4', cor, som)

1979 - Olinda (U-matic, 2', cor, som)

1979 - Viagem numa Paisagem de Magritte I (U-matic, versão em Super-8, 4', cor, som)

1979- Poema (Super-8, 2', cor, som)

1979 - Composições nos Fios – Partituras Mutantes (Super-8, 2'30; cor, som)

1979 - Via Crucis (Super-8, 10', cor, som)

1979 - Registros de Viagem (Super-8, 5', cor, mudo)

1979 - Os Construtores de Cidades, codireção José Roberto Aguillar e Ivald Granato (VT/VHS, 5’, cor, som)

1980 - VT 8 (Super-8, 2'30, cor, som)
1980 - LMNUZX, fogo! (Super-8 (xerofilme), 25'', p/b, som)
1980 - Exercícios, codireção Jomard Muniz de Britto (Super-8, 13', cor, som)

1981 - Se pintar, colou, codireção Cláudio Barroso (Super-8, 17', cor, som)

1981 - Se olhar, olhou, codireção Cláudio Barroso (Super-8, 15', cor, som)

1982 - Aépta (Super-8 (xerofilme), 5', cor, som)

1982 - II Artdoor, codireçãoJomard Muniz de Britto (Super-8, 10', cor, som)
1982 - Reflection (Super-8, 3', cor, som)

1982 - Estudo de Partituras Velozes para uma Música de Longa Metragem (Super-8, 1', cor, som)

1982 - Performance para 2 Elevadores (Super-8, 3', p/b, mudo)

1982 - Lubis (Super-8, 3', cor, som)
1982 - A Dança das Partituras (Super-8, 4’, cor, mudo)
1982 - Vitrines e Cartões Postais (Super-8, 3', cor, som)
1982 - Janelas de Amsterdam (Super-8, 4', cor, som)
1982 - Reflection II (Super-8, 2', cor, som)
1982 - Amsterdam Erótica (Super-8, 4', cor, som)

1982 - Arquitetura do Imaginário (Super-8, 4', cor, som)

1982 - A Grande Marcha (Super-8, 5', cor, som)
1982 - Grafittis de New York (Super-8, 4', cor, som)

1982 - Viagem numa Paisagem de Magritte II (Super-8, 1', cor, som)

1982 - Roteiro para Reflexos I (Super-8, 2' cor, som)

1982 - Roteiro para Reflexos II (Super-8, 2', cor, som)

1983 - Paulo Bruscky, Bruxo, Inventor, codireção Amin Stepple (U-matic, 9', cor, som)

1983 - Filme Trajeto: Recife/PE – João Pessoa/PB, codireção Unhandeijara Lisboa (Super-8, 2', cor, mudo)

1984 - A Estética do Camelô (Super-8, 5', cor, som)

1988 - Filme Percurso: Recife/PE – João Pessoa/PB (Super-8, 2', cor, mudo)

1988 - Fernando de Noronha (Super-8, 3'30, cor, mudo)

1988 - Ilusóide. Co-dirigido por Rucker Vieira (VHS, 12’, cor, som.)

2002 - Ima/Gens (Vídeoinstalação-performance, 10’, cor, som)

2002 - Livrobjetobraberta (Exposição retrospectiva de livros de artista) (VHS, 10’, cor, som)

2005 - Lógica x Acaso - Pega Varetas (VHS/DVD, 4', cor, mudo)

2007 - Meu cérebro desenha assim II (digital, 3'40, cor, som)
2008 - Work in progress e objetos inúteis (vídeo, 30’, cor, som)

2007 - Boa Noite (Déc. 70/2007) (Videoinstalação na Galeria Amparo 60)

2012 - Operação nas Cataratas de Foz do Iguaçu (digital , 2'13, cor, som)

2012 - Jogo-Performance (1971/2012) (digital, 3'55, cor, som)

2013 - Jogo-Performance (1971/2013) (digital, 2'58, cor, som)

Década de 1970-2014 - Os Carregadores de Espelhos (digital, 5'57, cor, som)

Década de 1970-2014 - A Platéia (digital, 4’, cor, som)

Década de 1970-2014 - No Ar (digital, 2'36, cor, som)

2015 - Poem For The Cabaret Volts Air (digital, 2'59, cor, som)

 

Fontes de pesquisa:

 

MACHADO, Arlindo (org.). Made in Brasil: Três décadas de vídeo brasileiro. São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2007.

PECCININI, Daisy Valle Machado (coord). ARTE novos meios/Multimeios – Brasil 70/80. São Paulo: Fundação Armando Álvares Penteado, 1985.

JAREMTCHUK, Dária; JORDÃO, Fabrícia. Paulo Bruscky em movimento. São Paulo: D. G. Jaremtchuk, 2014.