Marcos Bertoni (São Paulo/SP, 1955). Começa a produzir quando seu amigo Sérgio Mancini lhe apresenta a câmera super-8 Beaulieu 4008, com lente Schneider, em 1978. Com Mancini e Luiz Lacanna, funda a Lumma Filmes. A produtora estreia com Tevenda (1978), de Bertoni e Mancini. O cineasta realiza mais 13 curtas até 1986, entre eles, a animação Filmategan (1978), com Hugo Santos; os documentários Ação sobre tela (1982) e O viajante armênio (1983), sobre, respectivamente, os artistas plásticos Gilberto Salvador e Sarkis Kaloustian; e as ficções experimentais Concerto (1980), Sob Nova Direção (1980), Astrofagia (1982) e A Revolução das Massas (1983).

Em seus filmes, Bertoni mescla imagens gravadas por ele com trechos de filmes de terceiros, em geral hollywoodianos, além de ferramentas diversas, como animação de objetos, trucagens etc. A filiação ao gênero ficção científica também é comum em sua carreira. Seu filme de maior projeção, feito na esteira da tragédia em Chernobyl, Sangue de Tatu (1986), vencedor do prêmio de melhor enredo de super-8 no Festival de Gramado de 1989, utiliza imagens documentais das manifestações ecológicas contra as usinas de Angra dos Reis em uma trama ficcional sobre um vazamento nuclear.

Formado arquiteto em 1980 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos, Bertoni alterna sua produção fílmica autoral em super-8 com o trabalho de modelagem para efeitos especiais para fotografia, cinema, televisão e publicidade. Nessa especificidade, fez longas como As Sete Vampiras (1986), de Ivan Cardoso, entre outros.

Após longo hiato, volta a produzir em 2002, dentro de uma nova proposta, o Dogma 2002, que encabeça. Segundo tais preceitos, “É proibido filmar. É permitido reciclar, montar, dublar. Sempre em super-8.” A partir daí, realiza apenas filmes reciclados, em que se opera a colagem de trechos de vários filmes super-8, que podem ser dele, de filmes caseiros, ou de anônimos, comprados em feiras de usados, e até mesmo trechos condensados reduzidos para super-8 de filmes comerciais norte-americanos. Esta nova fase inclui curtas como Doutor Ekard (2002), Recuerdos da República (2002), Môr (2014), entre outros. Do Dogma 2002, emerge novas possibilidades criativas. A partir de imagens descartadas de Sangue de Tatu, por conta de uma sujeira que apareceu entre as lentes da filmadora, Bertoni realiza Cocô Preto (2003), sobre um extraterrestre que vem para a Terra destruir a humanidade e salvar o universo. O defeito é assim ressignificado, em especial pela narração em voz over que faz as vezes do alienígena. Bastante irônico e debochado, com verve ecológica comum à obra do cineasta, Cocô Preto e suas obras do Dogma aludem ao experimentalismo do chamado Cinema Marginal, com uma irreverência apenas tateada no início da carreira.

 

(por Gabriel Carneiro)

 

Filmografia (como diretor)

 

1978 – Tevenda (Super-8, 15'), codireção Sérgio Mancini

1978 – Filmategan (Super-8, 10'), codireção Hugo Santos

1979 - Cleópatra (Super-8, 18'), codireção Sérgio Mancini

1980 – Concerto (Super-8, 9')

1980 – Sob Nova Direção (Super-8, 9')

1981 – Projeção (Super-8, 3')

1982 – Astrofagia (Super-8, 16')

1982 – Sobre São Paulo (Super-8, 7')

1982 – Ação Sobre Tela (Super-8, 8')

1983 – A Revolução das Massas (Super-8, 9')

1983 – O Viajante Armênio (Super-8, 10')

1984 – As Férias (Super-8, 10')

1985 – Cores (Super-8, 9')

1986 – Sangue de Tatu (Super-8, 23')

2002 – Doutor Ekard (Super-8, 18')

2002 – Recuerdos da República (Super-8, 6')

2003 – A Piscina (Super-8, 15')

2003 – Cocô Preto (Super-8, 16')

2004 – O 24 Horas (Super-8, 16')

2005 – No Fundo do Poço (Super-8, 12')

2013 – Zazá – O Artista, o Mito, codireção Alfredo Suppia (como Marc Breton e Alfred Smith) (Super-8, 16')

2014 – Môr (Super-8, 3'30")

2016 – Imensidão Azul (Super-8, 6')

2017 - Arreateior (Super-8, 11')

2018 – A Invasão dos Espermatozoides Assassinos (2018, 10')

 

 

Fontes de pesquisa

 

CARNEIRO, Gabriel. Entrevista com Marcos Bertoni, in Revista Zingu!, edição 32. São Paulo: junho de 2009. Disponível em: < http://revistazingu.blogspot.com/2009/06/dcb2-entrevistacommarcosbertoni.html>. Acesso em 29 de agosto de 2019.

 

DOSSIÊ Cinema de Bordas 2, in Revista Zingu!, edição 32. São Paulo: junho de 2009. Disponível em: <http://revistazingu.blogspot.com/2009/06/edicao32.html>. Acesso em 09 de setembro de 2019.

 

URBAN, Rafael. Psicose Bossa Nova, in piauí, n. 40. Rio de Janeiro: janeiro de 2010. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/materia/psicose-bossa-nova/>. Acesso em 09 de setembro de 2019.