Raymond Chauvin (Valréas/França, 1935 - Porto Alegre/RS, 1994). Foi a profissão de seu pai, fabricante de champagne, que levou o clã Chauvin da França ao sul do Brasil em meados da década de 1950. Depois de trabalhar nas terras da família em Garibaldi-RS, Raymond transfere-se para Porto Alegre, indo trabalhar como professor de literatura na Aliança Francesa. A obra deste Cineasta Amador, com “A” maiúsculo como ele mesmo se definia, foge do profissionalismo e do cinema convencional, buscando sempre a criatividade e a inspiração em outras artes como a literatura e a pintura. Foi um prolífico produtor de imagens e uma importante figura na cena cultural de Porto Alegre e de Santos-SP, cidade onde também lecionou na Aliança Francesa nos primeiros anos da década de 1980.

Em 1970, criou o conceito de Cinéma de salon, sessões intimistas de cinema em Super-8 inspirados nos salões literários do século 20. As projeções eram realizadas em salões ou ateliês e reuniam artistas e superoitistas que produziam um cinema “inútil”, ou seja, sem amarras profissionais, centrado na criatividade e na exploração da película como matéria-prima. O público que participava das sessões assinava uma ata especial que incluía a lista de filmes projetados e a eleição do melhor filme da noite; não raras vezes ele presenteava os participantes dos salões com as suas produções em Super-8.

De acordo com depoimentos de amigos e familiares, Chauvin teria feito mais de 400 filmes. Somente uma pequena parte deste universo - 28 rolos em Super-8 - encontra-se depositado no Museu da Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre. Ativo na cena superoitista dos anos 1970 e 1980, participou de diversos festivais, incluindo o Festival de Gramado, o Festival Nacional de Curta-Metragem do Rio de Janeiro, o Fescine – Festival Estadual do Cinema Menor de Porto Alegre, entre outros.

Depois de criar o Cinéma de salon, sempre no intuito de inventar um cinema diferente, o artista rodou na Aliança Francesa de Santos em 27 de novembro de 1981 o primeiro filme “feito à mão”, isto é, sem filmadora, segurando o cartucho de Super-8 na mão direita, enquanto a esquerda, mediante pequena manivela, acionava-o. Querendo ir mais longe, em 1983, passou a pintar as tiras de filmes previamente lavados com detergente. Em agosto de 1983, criou o Neo-Cinema, também chamado de Cinema-Pintura. Pintados à mão, os filmes 35mm ou papel vegetal, de um comprimento que não excede dois metros, são projetados horizontal e manualmente por meio de um simples projetor de slides. Para Chauvin, o propósito do Neo-Cinema era mostrar na tela “outra coisa, cores e formas que passam como nuvens no céu, um convite ao sonho”. Muitas vezes, o artista sugeria as trilhas sonoras que deviam acompanhar seus filmes. Os materiais do Neo-Cinema, que estavam até então desaparecidos, foram encontrados pela sua irmã, Bernadette Chauvin, em junho de 2013, e incluem aproximadamente 165 pequenos rolos em 35mm pintados à mão.

Chauvin também investia enorme energia em registrar a feitura dos seus filmes e formas alternativas de projeção. Em anotações, descrevia suas técnicas de pintura e manuseio da película, formas de colagem e criava conceitos e nomenclaturas para os seus métodos, como, por exemplo, o Processo R-C-7, que “consiste em fazer o que chamo de 'filmes-papel' para projeções totalmente diferentes” ou o Processo R-C-8 (ou Cine-Vidro) “que é simplesmente colocar uma garrafa pintada (com ou sem água dentro) sobre um carrinho, no sentido horizontal, e com uma manivela, fazer a garrafa girar enquanto se empurra lentamente o carrinho, posto entre uma fonte de luz e uma objetiva”. Os seus processos de trabalho com a luz extrapolavam as fronteiras entre cinema, fotografia e artes plásticas, ampliando assim o escopo e a importância da pesquisa em relação ao seu trabalho. O cineasta faleceu aos 59 anos, vítima de um câncer na garganta.

 

(por Lila Foster)