Roberto Miller (São Paulo-SP, 1923 - 16 de março de 2013). Ignácio Maia adotou o nome artístico de Roberto Miller em homenagem a duas figuras: o produtor musical e radialista Roberto Corte Real, grande amigo e inspirador, e o músico Glenn Miller, seu ídolo. Era filho único de um jornalista português, correspondente da Agência Reuters no Brasil. Por essa razão, e com a transferência do pai, passou sua infância em Portugal, retornando adolescente ao seu país natal, mas já trazendo forte interesse por cinema e fotografia.

Miller foi o grande pioneiro da animação experimental brasileira, principalmente na vertente da abstração. Em 1954, o jovem publicitário conheceu os filmes e o cineasta Norman McLaren durante o Festival de Cinema em São Paulo. Estimulado e convidado por McLaren, Miller viaja para um estágio de seis meses no National Film Board of Canada - NFB, escola de referência mundial para o Cinema de Animação. [1] Além do aprendizado e proximidade com outros campos do cinema de animação, iniciava-se uma amizade que perdurou durante as décadas seguintes, com muitas trocas de correspondências, experiências e desenhos às margens das folhas das cartas.

Após o estágio no Canadá, e de volta ao Brasil, Miller realizou Rumba (1956), premiado com a medalha de prata no Festival de Lisboa. O cineasta brasileiro reconhecia a importância do contato com o mestre: “a obra de McLaren mostrou-me outros horizontes no campo de animação. [2] O próprio McLaren ficou surpreso ao saber que no Brasil existia alguém que desejava se aventurar pelo campo do cinema abstrato”. [3] Inaugurava-se no Brasil, durante a década de 1950, o cinema abstrato, feito sem câmera, com intervenções realizadas diretamente sobre a película. Unia-se, assim, à tradição dos filmes abstracionistas de Len Lye e Oskar Fischinger – realizados durante a década de 1930 -, e do próprio Mclaren, posteriormente.

Nessa época, na virada dos anos 1950 para os 1960, Miller participou do “Centro Experimental de Cinema” em Ribeirão Preto, fundado por Bassano Vaccarini e Rubens Francisco Lucchetti, primeira entidade organizada no Brasil cujo objetivo era a produção de filmes de arte. Era um ensaio para a formulação de uma cena que contemplaria o cinema de animação brasileiro, notadamente, o experimental.

A obra que Miller realizou foi imensa, dada à natureza artesanal da atividade da animação e as condições de sua feitura. Da década de 1950 até o ano de 2001 foram, aproximadamente, 65 filmes, isso sem considerarmos um vasto material de laboratório que se encontra no arquivo da família. A grande maioria foi desenhada à mão, diretamente sobre a película 16mm e 35mm. Em sua casa, no bairro da Aclimação, São Paulo, o cineasta transformou o porão em laboratório para manufaturar muitos de seus filmes. Além das pinturas em nanquim sobre a película, conseguia efeitos pressionando os dentes de um pente de cabelo sobre o filme, usava jogos de espelho, bugigangas de caleidoscópio, cristais: recursos e materiais para produzir imagens. Também experimentou animação com fotografias em mesa table-top (quadro a quadro), efeitos com uso de raio laser (com filtros e espelhos coloridos), animações eletrônicas através de mesa de efeitos de televisão e gravados em videotape. Outra característica marcante de seu trabalho (muito presente nessa linhagem do cinema de animação): o uso da música. Miller acessou uma enormidade de referências musicais de diversas épocas, brasileiras e estrangeiras, para compor as visualidades de seus filmes, empregando-as às bandas sonoras dos filmes. Mas também fez uso de experimentações com música eletrônica e efeitos sonoros que as novas tecnologias ofereciam.

Ao longo de sua vida como animador, viu algumas de suas obras obterem vários prêmios internacionais - Sound abstract (1957), Experiências abstratas (1957), Desenho abstrato N° 2 (1989), O átomo brincalhão (1961), dentre outras. O reconhecimento de sua filmografia no Brasil, no entanto, permanecesse em espaços de projeção reservados, principalmente concentrados no início da carreira do realizador.

Além das animações experimentais, Miller atuou em publicidade, vinhetas e animação para televisão. Trabalhou na TV Tupi de São Paulo, TV Bandeirantes e na TV Cultura. Foi nessa última que apresentou e programou o importantíssimo programa “Lanterna Mágica”, primeiro programa televisivo brasileiro inteiramente dedicado ao cinema de animação. Foi também responsável pelos créditos iniciais de longas-metragens brasileiros como Gimba, Presidente dos Valentes (Flavio Rangel, 1963), Lampião, o Rei do Cangaço (Carlos Coimbra, 1964), As Amorosas (Walter Hugo Khouri,1968), entre outros. Além disso, foi um dos sócios fundadores da Association International du Film d'Animation – ASIFA, organização fundada em 1960 (Annecy, França).

Uma multiplicidade de atuações e ações atravessam a trajetória de Roberto Miller em sua dedicação ao cinema de animação e às “feitiçarias” para formulações de imagens. Sua trajetória parece estar sintetizada na sinopse de seu filme preferido, O átomo brincalhão (1961): “Um átomo é lançado ao espaço. Em órbita descobre que é uma figura alegre e brinca até desintegrar-se.”

 

(por Luiz Garcia)

 

Filmografia

 

1956 - Rumba (16mm, 1’45”)

- Medalha de prata no Festival de Lisboa.

1957 - Sound abstract (16mm, 3’)

- Prêmio Medalha de Ouro no Festival Internacional de Bruxelas, Bélgica. 1958.

- Prêmio Festival de Cannes, França. 1957.

1957-1958 - Experiências abstratas (Tilton Special) (16mm, 3’30”)

- Prêmio Medalha de Prata no Festival Internacional de Lisboa, Portugal, 1957.

- Prêmio Festival de Cannes, França. 1958.

1957 - Desenho abstrato (35mm, 3’)

- Prêmio Saci de Cinema e Jornal – O Estado de São Paulo, 1957.

- Participação especial no Festival Internacional do Rio de Janeiro, 1958.

- Prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1958.

1959 - Alephe (16mm, 1’30”)

1961 - O átomo brincalhão (35mm, 4’)

- Prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1964.

1963 - Balanço (16mm, 3’30”)

- Festival Internacional de Zagreb – 1963

- Primeira Mostra de Filmes de Animação – Salão de humor de Piracicaba. ASIFA, Brasil.

- Terceiro Festival Internacional de Arte Cinematográfica. Lisboa, Portugal, 1964.

1969 - Carnaval 2001 (16mm, 4’)

- Prêmio Governador do Estado de São Paulo. 1971

- Journées Internationales du Film de Court-Métrage. Paris, França. 1972.

- Diploma do Festival Internacional de Oberhausen, Alemanha, 1971.

1976 - Graphik Blue (16mm, 8’)

1977 - Vídeo arte n° 1 (16mm, 3’)

1977 - Can can (16mm, 3’)

1978 - Perception (16mm, 1’30”)

1978 - Filigrana (16mm, 4’)

1979 - Laser efeitos (16mm, 6’)

1983 - The Gay Game (16mm, 1’50”)

- Participação na Olympiad of Animation – USA, Los Angeles. 1984

1989 - Desenho abstrato n° 2 * (35mm, 3’)

- O Cinema Cultural Paulista, Museu de Imagem e do Som. 1990

- Festival de Animação Internacional de Amadora Cartoon 91, Portugal. 1991

-Prêmio Saci de Cinema e Jornal – O Estado de São Paulo, 1957.

-Participação especial no Festival Internacional do Rio de Janeiro, 1958.

-Prêmio Governador do Estado de São Paulo, 1958.

1991 - Opus 3 (16mm, 3’)

- Participação no Festival de Animação de Annecy, França, 1991.

1991 - Spit (16mm, 2’)

- Festival Internacional de animação de Hiroshima, Japão. 1992

1994 - Paz (1994, 16mm, 4’)

- Filme para a participação no Festival de Animação em Hiroshima, Japão.

1994 - Batucada (1994, 16mm, 3’)

1986 - Planeta Terra (*segmento no filme coletivo coordenado por Marcos Magalhães)

( 35mm, 10’)

- Filme de animação realizado por 33 animadores brasileiros para divulgar o Ano Internacional da Paz (ONU).

 

*A primeira versão de Desenho abstrato n° 2 (1957), cópia única, desenhada e pintada diretamente sobre película virgem de 35mm, foi perdida durante o Festival de Cinema Internacional do Rio de Janeiro em 1968. Miller refez o filme com outras imagens utilizando a trilha original.

 

Fontes de pesquisa

MORENO, Antônio. A experiência brasileira no cinema de animação. Rio de Janeiro: ArteNova/Embrafilme, 1978

NOTAS:

[1] Vale indicar que esse contato estabelecido entre o cinema de animação brasileiro com o NFB e Mclaren, teria forte influência para futuras gerações de animadores do país.

[2] Embora reconheça hoje o enorme valor do processo moderno, explorado pela UPA (United Productions of America, estúdio de animação dos Estados Unidos), não posso deixar de afirmar que McLaren foi, sem dúvida, quem melhor explorou até hoje o cinema experimental.

[3] MORENO, Antônio. A experiência brasileira no cinema de animação. Rio de Janeiro: ArteNova/Embrafilme, 1978, p.121.