João Silvério Trevisan (Ribeirão Bonito/SP, 1944). Interessa-se por cinema durante a adolescência no Seminário católico. Muda-se para São Paulo, onde, primeiro, trabalha na Cinemateca Brasileira e, depois, é assistente de direção de João Batista de Andrade em Liberdade de Imprensa (1967). Com ele, Francisco Ramalho Jr. e Sidney Paiva Lopes fundam a Tecla Produções Cinematográficas em 1968. Atua, entre outros, como diretor de produção de Anuska, manequim e mulher (1968), de Ramalho. Dirige o curta O&A (1968), para peça homônima de Roberto Freire. Remonta-o em Contestação (1969), uma compilação de imagens de confrontos entre policiais e manifestantes. O filme, influenciado por Jean-Luc Godard, assume-se contrário à repressão ao ecoar, em sete línguas, as palavras de Mao Tsé-Tung: “É preciso atrever-se a falar, agir, pensar, ser temerário, e não intimidar-se com os grandes nomes nem as autoridades”. Em viagem pela Europa e pela África, inspira-se a escrever e dirigir seu único longa, Orgia ou o Homem Que Deu Cria (1970), considerado inconveniente em quase toda sua totalidade pela censura, não tendo exibição comercial. Vinculado ao chamado Cinema Marginal, Orgia mergulha na contracultura, no tropicalismo, na antropofagia oswaldiana para se rebelar contra a instituição do Cinema Novo. Trevisan assume no movimento uma relação de paternidade com o qual precisa romper. Vem daí o título original Foi Assim Que Matei Meu Pai; relação retomada no romance autobiográfico Pai, Pai (2017), seu livro mais recente. Em tom alegórico, Orgia desfila uma série de personagens-tipos (o travesti, o cangaceiro grávido, o rei negro e cadeirante etc.), em jornada carnavalesca, para encontrar o inconsciente do povo brasileiro.

Em auto exílio, toma contato com o movimento gay em São Francisco, nos EUA. Volta ao Brasil em 1976 e publica seu primeiro livro, Testamento de Jônatas Deixado a Davi. Ainda nos anos 1970, assina o primeiro tratamento de Doramundo (1976), de João Batista, e o roteiro de A Mulher Que Inventou o Amor (1979), de Jean Garrett. Militante LGBTQ+, escreve para o jornal alternativo Lampião da Esquina e o livro-ensaio Devassos no Paraíso (1986), sobre a homossexualidade no Brasil. Também dramaturgo, é autor de peças como Heliogábalo & Eu. Como escritor, assina ainda as ficções Em Nome do Desejo (1983), Ana em Veneza (1994) e Rei do Cheiro (2009), entre outros. Seu trabalho mais recente no cinema é o roteiro do média-metragem Julia Mann (2005), de Marcos Strecker. Atualmente, também ministra oficinas literárias.

 

(por Gabriel Carneiro)

 

Filmografia como diretor e roteirista

 

1968 – O&A

1969 – Contestação (35mm, 14')

1970 – Orgia ou o homem que deu cria (35mm, 97')

1976 – Doramundo, de João Batista de Andrade (primeiro tratamento de roteiro)

1979 – A mulher que inventou o amor, de Jean Garrett (roteiro)

2005 – Julia Mann, de Marcos Strecker (roteiro)

 

Bibliografia

 

ARAUJO, Jackson. O escritor que deu cria, in Revista da Folha. São Paulo, 8 de outubro de 1995, nº 181, ano 4, p. 26-27.

 

CARNEIRO, Gabriel. Entrevista com João Silvério Trevisan, in Revista Zingu!, edição 34. São Paulo: agosto de 2009. Disponível em: < http://www.revistazingu.blogspot.com.br/2009/08/djstentrevistacomjoaosilveriotrevisan.html>. Acesso em 29 de agosto de 2019.

 

DOSSIÊ João Silvério Trevisan, in Revista Zingu!, edição 34. São Paulo: agosto de 2009. Disponível em: <http://revistazingu.blogspot.com.br/2009/08/edicao-34.html>. Acesso em 29 de agosto de 2019.

 

FERREIRA, Jairo. “Orgia”, filme limite entre o velho e o novo, in Folha de S.Paulo. São Paulo, 12 de julho de 1978, Ilustrada, p. 35.

 

FERREIRA, Jairo. Cinema de Invenção. Rio de Janeiro: Azougue, 2016, p. 107-113.

 

RAMOS, Guiomar. Um cinema brasileiro antropofágico? (1970-1974). São Paulo: Annablume, 2008, p. 95-115.

 

TREVISAN, João Silvério. “Uma geração marginal”, in PUPPO, Eugênio (org.). Cinema Marginal Brasileiro e Suas Fronteiras. 2ª ed. Brasília: Centro Cultural Banco do Brasil, 2004, p. 139-140.