Jomard Muniz de Britto (Recife-PE, 1937). Professor, poeta, escritor, filósofo, cineasta, com obra marcada por manifestos, experimentos, performances, livros, peças de teatro e dezenas de filmes. No centro de sua criação está, como afirma em entrevista em 1985, a "crítica cultural", persistentemente anti-dogmática e anti-consensual, contra noções estritas de arte nordestina, arte realista ou arte militante, e que com frequência encontra a transgressão na geopolítica do corpo, no humor corrosivo, na bissexualidade e na travestilidade, na "polimorfia" ou na "fantasia erótica". Em muito sua produção tensiona ideias de grupos como os de Gilberto Freyre ou Ariano Suassuna, de quem fora aluno de Estética na Universidade Católica de Pernambuco e a quem dirige um de seus filmes mais emblemáticos, O palhaço degolado (1977). Entusiasta da Bossa Nova, da Poesia Concreta, da Poesia Marginal e do Cinema Novo, em 1968 é um dos abaixo-assinados do Manifesto Tropicalista, além de lançar, com Artistides Guimarães e Celso Marconi, os manifestos Porque somos e porque não somos tropicalistas e Inventário do nosso feudalismo cultural.

Ainda na adolescência, Jomard acompanha o surgimento dos cinemas modernos durante vivência cineclubista. Já atuante na cena cultural recifense, em 1956 conhece Glauber Rocha e, em visita a Salvador, convive no set de O pátio (1959), em que segundo relatos teria sido assistente de direção. Glauber terminaria por assinar o prefácio de seu segundo livro, Do modernismo à bossa nova (1966), publicado dois anos depois de Contradições do homem brasileiro (1964) e em parte inspirado pela vanguarda baiana. Cunharia, na altura de lançar seus primeiros filmes, a ideia de "mito pernambucanobaiano".

Tendo iniciado a carreira como professor de filosofia em cursos secundários, Jomard ocupa quadros importantes ao lado de lideranças da educação progressista: em 1962, integra iniciativa de extensão da Universidade do Recife (futura UFPE) e a equipe inaugural do Sistema Paulo Freire de Educação de Adultos, dando aulas em diversas capitais até ser aposentado pela Ditadura Militar ainda em 1964, preso por 20 dias aos 27 anos de idade. Leciona na UFPB de 1965 até ser mais uma vez aposentado com a instauração do AI-5.

Segundo Jomard, a chegada à realização de cinema se dá como fruto do "ócio criativo" após as aposentadorias precoces. No período, dá aulas em faculdades privadas, publica livros, integra grupos de promoção de música popular brasileira moderna, como o Raiz e o Construção, cujos companheiros, como Naná Vasconcelos, eram em parte provenientes do extinto Movimento de Cultura Popular (MCP) - que ele mesmo nunca integrou. Explora metodologias criativas de ensino na Escola Superior de Relações Públicas, onde desenvolve o curso de Comunicação e Criatividade e, ao ganhar da colega Astrogilda de Carvalho Paes de Andrade uma câmera Super-8, uma Canon 310 XL 8mm, resolve fazer filmes didáticos em substituição à projeção de slides. Expande o objeto de seu equipamento ao longo dos anos 1970, filmando a paisagem recifense e o grupo de teatro contracultural Vivencial Diversiones, de Olinda, em aclamação à liberdade, à dissidência e à festividade, em contraste com vertentes mais realistas da produção em Super-8, como a do conterrâneo Fernando Spencer. Em vez do cinema direto, prega o "cinema indireto, oblíquo". Seus primeiros filmes, como Babalorixá Mário Miranda, Ensaios de androgenia, Infernolento e Maria Aparecida no Carnaval, vêm a público em 1974, mesmo ano em que promove o Festival JMB e o projeto cineclubista Cinevivendo, acreditando cada vez numa vocação política da criação em Super-8. São parceiros frequentes de seu cinema Carlos Cordeiro e Rucker Vieira, na montagem e na fotografia, e Lima no som.

"Proclamo os cineastas superoitistas como os líricos condenados de nossa realidade sócio-cultural", escreve no Jornal do Commercio em 1977, em crítica aos sistemas culturais restritos à intelectualidade e à cultura oficial. O palhaço degolado (1977), seu filme mais referenciado, é aclamado no Recife e em Salvador, ao mostrar um palhaço bradando discurso institucional salvacionista nos domínios da Casa da Cultura, inaugurada um ano antes no prédio onde funcionara até 1973 a Casa de Detenção do Recife. Naqueles anos, realiza 13 filmes em parceria com o grupo Vivencial Diversiones, em diálogo com o diretor Guilherme Coelho, com quem cria e recria espetáculos. Vivencial I (1974), Uma experiência didática: O corpo humano (1974), Toques (1975) e Jogos frutais frugais (1979) encontram no corpo dissidente, por vezes carnavalesco, uma plataforma "anarco-crítica". Como o grupo Construção, antes, Jomard escreve em 1982 que o Vivencial seria pioneiro de uma arte popular extraoficial e coletiva, neste caso explorando uma "dialética entre erótico e político" capaz de "revolucionar a palavra no corpo".

O cinema de Jomard é marcado pelas inspirações do trânsito, como em Recinfernália (1975), que explora o deslocamento pelo centro do Recife e a tensão entre a tradição e transformações, ou profanações, do tempo. Com a abertura política, reintregrado à UFPB e à UFPE em 1979, leciona sobre Super-8 na Paraíba, onde realiza filmes, como Paraíba masculina feminina neutra (1982), e participa da chamada segunda geração do cinema paraibano, em frente marcadamente anti-realista, mantendo ponte entre João Pessoa e Recife. Em parceria com artistas como Alceu Valença, Ivonete Melo ou Paulo Bruscky, realiza filmes até o fim do ciclo superoitista, como Noturno em Ré(cife) maior (1981), notado como raro filme experimental de vampiro. Ocupa cargos públicos, como presidente da Fundação de Cultura Cidade do Recife, em 1985, na gestão progressista de Jarbas Vasconcelos, e se mantém como agitador cultural em diversos meios, inclusive cinema filmado em vídeo. Ao se aposentar, nos anos 1990, passa a assistir aulas na universidade em busca de um "papel discente". 25 anos depois do Manifesto Tropicalista, publica Porque somos e não somos pós-tudo-pós ou pop-pós-tropicalistas. Por décadas a fio, Jomard segue nos espaços do Recife distribuindo, em papel, seus Atentados poéticos, impressões plurais sobre a cultura, a política, a arte, a vida e a sociedade.

 

(por Luís Fernando Moura)

 

Filmografia

 

1974 - Babalorixá Mario Miranda, Maria Aparecida no Carnaval (Super-8, 30', cor, som)

1974 - Infernolento*

1974 - Ensaio de androgenia*

1974 - Uma experiência didática: O corpo humano (Super-8, 4', cor, mudo)

1974 - Mito e contramito da família pernambucanobaiana (Super-8, 16', cor, som)

1974 - Lixo ou lixo cultural (Super-8, 4', cor, som)

1974 - Vivencial I (Super-8, 12', cor, som)

1975 - Recinfernália (Super-8, 16', cor, som)

1975 - Toques (Super-8, 7', cor, som)

1975 - Esses moços, pobres moços (Super-8, 12', cor, som)

1975 - Folionas ou paixão de carnaval (Super-8, 19', cor, som)

1976 - Copo vazio (Super-8, 3', cor, som)

1976 - Palavras*

1977 - O palhaço degolado (Super-8, 10', cor, som)

1977 - Discurso classe média (Super-8, 4', cor, som)

1977 - Alto nível baixo (Super-8, 8', cor, som)

1977 - Poesia viva, codireção Paulo Bruscky (Super-8, 7', cor, som)

1978 - Cheiro do povo*

1978 - Imitação da vida*

1978 - Inventário de um feudalismo cultural nordestino (Super-8/vídeo, 11', cor, som)

1979 - Jogos frutais frugais (Super-8, 14', cor, som)

1979 - Jogos labiais libidinais*

1980 - Exercícios* (5')

1981 - Amanhecendo, codireção Rucker Vieira (Super-8, 18', cor, som)

1981 - Primeira Exposição Internacional de Art-Door*

1981 - A lua luta por Lula, codireção Lima (Super-8, 8', cor, som)

1981 - Noturno em Ré(cife) Maior (Super-8, 33', cor, som)

1982 - Olho neles (Super-8, 6', cor, som)

1982 - Outras cenas da vida brasileira* (Super-8, 20', cor, som)

1982 - Tieta do litoral (vídeo/Super-8, 5', cor, som)

1982 - II Artdoor, codireção Paulo Bruscky (Super-8, 10', cor, som)

1982 - Esperando João (Super-8, 30', cor, som)

1982 - A cidade dos homens (Super-8, 25', cor, som)

1982 - Paraíba masculina feminina neutra*

? - Valores do presente* (Super-8/vídeo, 10', cor, som)

? - Nenhum homem é uma ilha*

? - Procure ver o que existe por trás de tudo*

1994 - Madame Bayeux, outra paixão nacional (vídeo, 22', cor, som)

1994 - Madame Bayeux chez BARÃO ou MADAME BAYEUX no lugar do inconsciente (vídeo, 14', cor, som)

1994 - Anjos e demônios do Varadouro (vídeo, 35', cor, som)

1995 - Arrecife de desejo ou O Palhaço Redegolado (vídeo, 52', cor, som)

1995 - Au Revoir Madame Bayeux (vídeo, 52', cor, som)

1996 - TAO e Tão, quem é ela? (vídeo, 4', cor, som)

? - Bandeira Opus Zero* (vídeo, 20', cor, som)

2000 - Poeticidade (vídeo, 11', cor, som)

2005 - Aquarelas do Brasil (video/Super-8, 28', cor, som)

 

*Não foi possível confirmar informações como local de realização, bitola/suporte,

duração, ano ou possível codireção.

 

Fontes de pesquisa

 

CUNHA FILHO, Paulo Carneiro da. A imagem e seus labirintos: O cinema clandestino do Recife; 1930-1964. Recife: Nektar, 2014.

_____. A pesquisa cultural nas margens: universidade, vanguarda, periferia (Para Jomard Muniz de Britto). Trabalho apresentado no III ENECULT – Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 2007, UFBA, Salvador.

 

MORAES, Fabiana; OLIVEIRA, Aristides. Jomard Muniz de Britto: professor em transe. Recife: Cepe, 2017.

 

NUNES, Pedro. Jomard Muniz de Britto: um livre pensador a serviço do cinema e da cultura. In: AMORIM, Lara; FALCONE, Fernando Trevas. Cinema e memória: o Super-8 na Paraíba nos anos 1970 e 1980. João Pessoa: UFPB, 2013.